Márcio Rosa da Silva

 

Na célebre parábola do filho pródigo, contada por Jesus, há um personagem para o qual damos pouco destaque: o filho mais velho. Ele nunca saiu de casa, sempre trabalhou de maneira exemplar, nunca desobedeceu ao pai. A despeito disso, ele tem um reação  inesperada quando, ao voltar pra casa depois de um dia de trabalho, ouve músicas e danças e é informado que o seu irmão mais novo voltou. Ele fica enfurecido e se recusa a entrar. Seu pai vai até lá fora e tenta convecê-lo a entrar, mas ele fica ainda mais bravo e diz ao pai que ele sempre trabalhou como um escravo, sempre foi obediente, mas nunca teve uma festa para celebrar com os amigos. Já o filho mais moço, mesmo tendo gasto tudo com prostitutas, agora que retornou, ganha uma festa grandiosa.

Essa dor de cotovelo, essa inveja, esse ciúme, essa ira desmedida é o que apelidei de “síndrome do irmão mais velho”. Ela pode atingir a qualquer um de nós.

Essa síndrome me atinge quando não consigo lidar com a admirável Graça do Pai. Quando, à semelhança do filho mais velho, não aceito que Deus ame todos com a mesma intensidade e que perdoe mesmo aqueles que não fizeram por merecer.

Também sou atingido com essa síndrome quanto tudo o que faço não está motivado por amor, mas por interesse. O filho mais velho tinha uma obsessão por reconhecimento. Ele trabalhava como um escravo, como ele mesmo diz, para obter o favor do pai. Ou seja, ele não trabalhava na casa pai, porque era sua casa, mas se via como um escravo, fazia por obrigação. Ele estava como aquela pessoa que faz de tudo no mundo religioso. Está com a agenda cheia de atividades na igreja. Nem tem tempo mais para sua família e para os amigos. É como um escravo. A princípio poderia ser citado como exemplo. Mas será que tudo o que ele faz é por amor? Se não for por amor de nada valerá.

O pior sintoma dessa síndrome é o ressentimento. O filho mais velho não admite que o “pecador” seja recebido com festa. Fica, então, ressentido, cheio de amargura. Era uma pessoa aparentemente santa e exemplar, mas no seu interior era uma pessoa ressentida, orgulhosa, má e egoísta.

Existe muito ressentimento e muito julgamento entre os “santos”, entre os “religiosos”, entre os “corretos”. Há muita raiva contida entre as pessoas que são obcecadas por evitar o “pecado”.

O filho mais velho, em vez de entrar na casa e partilhar da alegria de seu pai e de seu irmão mais novo, fica do lado de fora esbravejando. Assim como nós quando ficamos reclamando de pequenas rejeições, pequenas indelicadezas, pequenas negligências. A falta de um cumprimento aqui, um convite não feito ali, um esquecimento de uma data importante acolá. E vamos nos ressentido com os outros. Vamos nos perdendo em murmúrios, lamentos, resmungos e queixas. E quanto mais alguém reclama por se achar rejeitado, mais ele se convence, erroneamente, de que é mesmo um excluído, um incompreendido, uma vítima do mundo. Depois disso a amargura toma conta de toda a pessoa.

Para evitar tal síndrome, é preciso deixar as rivalidades e as comparações. Deus nos ama com a mesma intensidade. Ficar comparando sua vida com a de outros é uma forma de se entristecer e se amargurar. Pelo contrário, é preciso ter um atitude de gratidão. Ser grato por tudo e aproveitar a casa do Pai, a presença de Deus. Fazer da gratidão uma disciplina espiritual. Agradecer pelas pequenas e pelas grandes coisas e reconhecer que a vida como um todo é um dom, um presente. Só assim, em vez de ficarmos sempre resmungando do lado de fora da vida, entraremos e aproveitaremos a música, a dança e a alegria da casa do Pai.

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