Márcio Rosa da Silva

Funciona mais ou menos assim: O pregador anuncia para o auditório que todos estão perdidos e precisam de salvação. Necessitam se arrepender, pedir perdão e aceitar a Jesus como salvador. Só assim serão salvos. Após a prédica o orador faz um apelo. Quem quiser ser salvo deve levantar a mão e ir até à frente. Repetidas umas frases, a pessoa está salva.

Esse é um modelo clássico de pregação evangelística. Existem outros muito mais apelativos e até constrangedores, mas esse é o tradicional. O problema é o seguinte: será que as respostas dadas nesse tipo de pregação respondem as perguntas que as pessoas estão se fazendo na atualidade?

Vamos imaginar esse tipo de pregação sendo ministrada a uma adolescente de 13 anos  que foi violentada sexualmente pelo próprio pai, que está machucada no corpo, na alma, no coração, nos sentimentos. Ela já não tem referenciais porque quem devia protegê-la foi o algoz e abusador. Acho que pode passar pela mente dela as seguintes questões: Do que preciso me arrepender? Preciso pedir perdão de quê? Serei salva do quê para quê? Tenho que aceitar um Deus que vai perdoar quem me violentou?

O discurso da pregação tradicional e formulada com base em regrinhas pré-moldadas importadas de uma eclesiologia pragmática não faz o menor sentido num contexto desses. A pregação da salvação, nos moldes daquele orador do início do texto vai cair no vazio para quem está envolto em tamanhas tragédias.

As elaborações acerca da justificação, expiação, santificação, eleição, etc, não vão comunicar, de forma alguma, o amor de Deus ao coração de uma pessoa quem nem perguntou nada disso e que, por conta da maldade alheia, foi envolvida numa espiral de dor e sofrimento. Ela só quer alívio para sua dor e esperança de dias melhores.

Diante da dor de uma menina violentada pelo próprio pai ou por qualquer outra pessoa, nossas discussões acerca da melhor verdade ou da mais reta doutrina, deveriam nos causar vergonha e rubor na face. De que adianta sair vencedor de um debate doutrinário, se somos impotentes para dar uma resposta ao sofrimento humano? Se somos covardes ou acomodados de tal forma que preferimos levantar a mão numa canção pasteurizada de “louvor” a Deus, mas somos incapazes de estender a mão para aliviar a dor de quem sofre.

Aquela menina vítima de 13 anos também é alvo do amor de Deus. Como pregar o evangelho para ela? Creio que há, sim, uma forma. Acolher, amar, estender a mão, tentar livrá-la das culpas que ela certamente carrega fazendo-a enxergar que ela é querida, amada, e que há, ainda, pessoas em quem ela pode confiar. Sentar-se ao lado dela sem dizer palavra alguma, mas deixar bem claro que ela tem com quem contar. Talvez assim, ela consiga enxergar Jesus no rosto de quem estiver ao seu redor, cuidando dela. Talvez ela consiga enxergar Jesus no rosto de uma psicóloga comprometida com a causa da justiça, talvez no rosto de um funcionário de um abrigo, talvez no sorriso acolhedor de quem lhe preparou uma refeição, talvez no gesto de um voluntário que abriu mão de uma tarde de sábado ou domingo para lhe contar estórias ou para ouvir suas histórias.

As pessoas que agem assim são pregadoras do Evangelho de Jesus Cristo, ainda que não saibam. Estão seguindo a recomendação de Francisco de Assis: “Pregue o evangelho em todo o tempo. Se necessário, use palavras.”

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