Se não tivéssemos a mínima esperança de que dias melhores virão, não teríamos forças para viver. Mesmo o mais pessimista dos homens tem lá uma pontinha de anseio de que as coisas sejam melhores um dia. Isso é esperança. Até o desespero é uma prova de que há esperança, porque só há desespero onde há (ou já houve) esperança.

A cristandade crê que haverá um dia em que tudo vai mudar e que o Reino de Deus será estabelecido plenamente. Entretanto, alguns crêem que esse mundo, tal como conhecemos, tem que piorar cada vez mais até que haja uma intervenção divina e, de uma só vez, tudo se acabe e seja refeito. Realmente, haverá novos céus e nova terra, como cumprimento do que Jesus diz: “Eis que faço novas todas as coisas”. Mas esse entendimento pode levar as pessoas a não terem nenhum compromisso com a melhoria desse mundo. Crer assim pode fazer as pessoas ficarem acomodadas e, talvez, até torcerem para que tudo piore mesmo, porque quanto pior, melhor, ou mais próximo dos eventos escatológicos.

Também existe um saudosismo, que parece recorrente, de que no passado as coisas eram melhores, o mundo era melhor e que só está piorando. Será? Não sei, não. Por pior que seja a medicina de hoje, eu não gostaria de ser tratado por um médico do século XV. A mim me parece que a condição da mulher nos dias de hoje é melhor do que no passado. O acesso a condições de conforto, o acesso à informação, o avanço da democracia. Tudo isso são melhorias. Claro que tudo isso vem acompanhado de muitas coisas negativas, como a fragilização dos relacionamentos, por exemplo.

O mundo parece estar um pouco melhor do que já foi, mas, a despeito disso, ainda está longe de ser o ideal. De quem é culpa? Talvez ele esteja olhando para você no espelho. O mundo é o que fazemos dele. E o que temos feito? 

Será que a utopia de dias melhores, num mundo em que paz, justiça e alegria sejam presentes e comuns a toda criatura, devem nos fazer cruzar os braços e apenas esperar tudo isso chegar? Creio que não. Essa esperança deve nos impulsionar a antecipar a realização desses ideais, porque, na verdade, cruzar os braços é uma demonstração de falta de esperança e pouca (ou nenhuma) fé.

Jürgen Moltmann diz que “este é o pecado que mais profundamente ameaça o crente. Não o mal que ele faz, mas o bem que deixa de fazer; não são as suas más ações que o acusam, mas as suas omissões. Elas o acusam de falta de esperança; pois os assim chamados pecados de omissão se fundamentam todos na desesperança e na pouca fé”1. Omitir-se, deixar de fazer o bem que sabemos é um grave pecado contra Deus e contra o próximo.

Há esperança sim para esse mundo, dias melhores poderão vir, mas os responsáveis por isso somos nós mesmos. Omitir-se, ficar indiferente ou querer que tudo vá de mal a pior é descrer nas promessas de Deus, negar a fé e vilipendiar a esperança. É deixar de lado a própria essência do cristianismo.

Márcio Rosa da Silva

1Teologia da Esperança, Teológica & Edições Loyola, 3ª Edição, 2005, p. 38.

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