Li, há algum tempo, um texto de um dos meus mentores, o reverendo Ricardo Gondim, no qual ele dizia que tinha descoberto que tinha menos tempo para viver dali para frente do que ele já tinha vivido. “Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço”, ilustrou o escritor.

Hoje faço aniversário e, durante esses dias, tenho me lembrado frequentemente desse texto. Chego a me ver com uma bacia de jabuticabas nas mãos e tento imaginar quantas ainda tenho. Pela lógica da vida, ainda tenho muitas, caso não aconteça nenhum percalço que faça a bacia cair esparramando as jabuticabas, ainda viverei mais anos do que já vivi até agora. Mas isso não me faz deixar de meditar sobre o que é a vida e o que tenho feito dela.

Apesar de ainda viver o vigor da juventude, tenho plena consciência de que, se tiver sorte, vou envelhecer. Claro, porque só envelhece quem tem a sorte de escapar de tantas possibilidades de ter a vida ceifada precocemente. Uma pessoa idosa é abençoada, chegou lá. Eu, se tiver sorte, chegarei. E quando isso acontecer sei que as coisas serão diferentes, meus cabelos serão poucos, meu corpo será debilitado pelo passar impiedoso dos anos e a disposição não será a mesma.

A vida é como uma neblina que agora se vê e daqui a pouco é dissipada pelo sol. É passageira, apenas um sopro. Sei que um dia vou acordar, olhar no espelho e ter dificuldade de reconhecer o distinto senhor que estará me olhando. Só que nesse dia não quero lamentar o fato de não ter percebido o tempo passar. Quero aproveitar cada momento, viver intensamente cada instante de minha vida fugaz.

É por isso que celebro ter sido abençoado com uma mentoria tão significativa, que me colocou em contato com o texto acima. Assim, posso, desde agora, não desperdiçar meus verdes anos. Posso desde agora, não desperdiçar minha vida em projetos megalomaníacos, em ativismos desenfreados e sufocantes, em gana por poder e glória. Sei que posso investir meu tempo em pequenas coisas que realmente fazem a vida valer a pena, que dão verdadeiro significado a nossa existência. Família, amigos, irmãos de uma fé sincera, isso é importante.

Descobri, ainda jovem, que posso investir minha vida no anúncio de uma fé libertadora, de um Reino cujos valores são amor, paz e justiça e de um Deus que é amoroso, bom e cheio de graça. A despeito da maldade e das injustiças humanas, creio que um novo mundo é possível, através de homens e mulheres comprometidos com Deus e com o seu Reino.

Acho que tenho ainda algumas dezenas de jabuticabas na bacia, mas não vou devorá-las de modo displicente, quero aproveitar cada uma delas. Quem sabe assim, chegarei lá, velho, farto de dias e cheio de contentamento.

Márcio Rosa da Silva

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