Ainda fico abismado com o modo como somos formados no ventre de uma mulher. Davi tinha razão quando dizia que “de um modo terrível e maravilhoso fui formado”. É de causar estupefação. Meus ossos foram formados no ventre, na barriga, de minha mãe. É um milagre. Acho que é por isso que o amor de mãe é, literalmente, entranhável. Foi forjado em suas entranhas. É algo muito forte. Homem nenhum jamais experimentará algo com a mesma intensidade. Acredito até que poderá experimentar algo muito parecido, mas não na mesma intensidade.

O que se vê no sentimento de proteção de uma mãe por um filho vai muito além da preservação da espécie, é uma ligação afetiva sem paralelo. Tudo coopera para isso. Além de ser formado no ventre da mãe, o filho ainda se alimenta do corpo da mãe durante meses. A ligação é entranhável. Penso também que seja por isso que algumas mães entram em crise quando o filho, na adolescência, deseja parecer mais independente e não quer nem saber de ficar perto delas, principalmente quando está com colegas da mesma idade. A boa notícia é que essa fase passa e depois eles se reaproximam.

 

Esse amor intenso, forte, quase transcendente que é o amor de mãe, é reflexo de um outro amor, esse sim imensurável, que é o amor de Deus. Deus é Pai e também é Mãe. O amor de Deus é um amor de mãe multiplicado à infinita potência. Ele nos criou e fomos gerados nEle. Somos dependentes dEle, cuidados por Ele. Ele se preocupa em como vai nossa vida, nossa alma, nosso coração. Quer ter um relacionamento paternal/maternal conosco. Quer compartilhar do seu Ser conosco. Encarnou em Cristo Jesus e se deu por nós, como qualquer mãe verdadeira faria por um filho seu. Enfim, tem por nós um amor de mãe, mas ainda maior. Sim, porque uma mãe até pode esquecer-se de seu filho. Uma desnaturada, desvairada, pode até abandonar seu filho, renegando-o. Mas o Senhor jamais se esquecerá de nós. Ainda que a mãe abandone aquele que amamenta, o Senhor não nos abandona.

 

Mas, qual filho adolescente, insistimos em nos afastar dEle. Achamos que somos bons o suficiente para sermos independentes, não precisamos de Deus. Não queremos mais andar com Ele, nem desfrutar seu cuidado. Só nos achegamos a Ele quando precisamos de alguma coisa, tal qual o adolescente que não quer nem saber dos pais perto dele quando vai com os colegas ao cinema, mas corre para eles para pedir o dinheiro do ingresso. Somos iguaizinhos no nosso relacionamento com Deus.

 

Na nossa caminhada de vida, em situações normais, vencida a imaturidade própria da adolescência, voltamo-nos para os pais tendo um sentimento de gratidão, de reconhecimento por tudo o que foi realizado. Assim também Deus, tal qual um pai amoroso, tal qual uma mãe carinhosa, aguarda o momento em que, maduros vamos nos achegar a Ele, reconhecendo o quanto somos devedores e o quanto devemos ser gratos, o quanto somos dependentes e o quanto necessitamos de um relacionamento com Ele.

 

Assim é o amor de Deus, é um amor de mãe, só que multiplicado exponencialmente. Assim é o amor de mãe, um vislumbre do amor de Deus.

Márcio Rosa da Silva

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