Maria estava feliz por ter abraçado a fé cristã, empolgada com a possibilidade de caminhar com Deus. Num dia de evento especial em sua igreja o pregador, em dado momento da reunião, faz uma oração, lançou seu paletó sobre a pequena multidão e dezenas caíram no chão, em transe. Maria, sem entender direito o que estava acontecendo, ficou em pé observando as pessoas. O indigitado pastor, ao microfone, chamou aquela mulher e disse que ela estava com o coração endurecido e, caso não caísse, era porque estava cheia de demônios. Maria quase entrou em pânico, porque todos os olhares se voltaram contra ela. Tentou explicar que não estava endemoninhada, mas não foi ouvida. As pessoas a cercaram e começaram a expulsar o demônio e a ministrar a unção para que ela caísse. Ela começou a chorar e a dizer que não tinha demônio algum, que amava a Deus, mas ninguém lhe deu ouvidos. Em pânico, caiu desfalecida, para delírio de todos os presentes.

Dolores tinha já alguns anos de vida cristã quando sua comunidade aderiu a um movimento que seria, segundo os organizadores, aquele que reavivaria definitivamente a igreja. Quem estivesse de fora, estaria fora da vontade de Deus. Ela tinha que prestar contas de tudo o que acontecia em sua vida para uma pessoa da igreja, inclusive de sua vida conjugal, e não podia tomar nenhuma decisão sem antes obter a permissão dessa pessoa. Quando queria sair com o marido precisava pedir permissão. Caso fosse negada, adeus jantar romântico. Tinha que obedecer a igreja. Um belo dia o marido de Dolores, depois de muito desgaste, trocou-a por outra mulher que estava disposta a sair com ele e a viver uma vida conjugal madura e livre de interferências externas. Dolores viu-se aflita, recorreu a várias correntes de oração para ter seu marido de volta. Nada aconteceu.

João tinha um filho lindo, oito anos de idade, inteligente, alegre, gostava de acompanhar o pai às reuniões da igreja. Um dia o filho de João teve uma convulsão no meio do culto. Logo chamaram os líderes para orar e o diagnóstico foi contundente, o menino estava possesso. Após muita oração o menino recobrou a consciência e foi levado para a casa. As convulsões continuaram. Levado ao médico, verificou-se que o garoto tinha um tumor e precisava ser operado. O pai foi orientado a orar porque seu filho seria curado sem cirurgia alguma. Horas de oração, dias de jejuns e nada aconteceu. Depois de seis meses, João enterrou seu filho.

Maria nunca mais retornou àquela igreja. Tinha medo, vergonha e convicção que aquela experiência não tinha nada de Deus. Tudo lhe trazia pânico. Começou a se distanciar das pessoas e a se isolar. Nunca mais entrou em igreja alguma.

Dolores tornou-se uma mulher amargurada, frustrada e tem ódio de tudo que lhe lembre igreja.

João conseguiu se reerguer e depois de muito tempo conseguiu voltar a ter fé, mas agora sua fé é confiança em Deus, independente de curar ou não, de fazer coisas prodigiosas ou não. É uma fé mais madura.

Estas pessoas são fictícias, mas suas histórias são bem reais e já aconteceram milhares de vezes. São vítimas das loucuras feitas em nome de um pseudo-evangelho e de uma fé neurotizante, que, em vez de trazer paz e conforto, traz desequilíbrio.

Urge que a igreja volte a ser uma comunidade terapêutica, apenas um grupo de pessoas que amam a Deus e querem caminhar com ele. É necessário que ela seja também um espaço de cura para esses tantos feridos, para que voltem a ter a alegria da salvação, perdida (ou roubada) ao longo do caminho.

Márcio Rosa da Silva

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