É comum ouvir pessoas dizerem que precisam buscar um contato com alguma manifestação de religiosidade porque precisam de “paz interior”. É verdade. Paulo, o apóstolo, fala de “uma paz que excede todo entendimento”, que toma conta do coração daquele se rende a Cristo Jesus. Isso é fato.

Também é fato que o verdadeiro cristão tem o coração inquieto, sempre insatisfeito e empático com as dores dos outros, ou do próximo conforme o linguajar bíblico. Paulo fala que “não há quem se escandalize que eu não me queime por dentro”. O apóstolo diz então que seu coração ardia com o incômodo alheio. Assim, de certo modo, não estava em paz. Ele estava chorando com os que choram, tendo fome e sede de Justiça, carregando as cargas do outros, indignando-se com a indignidade de outrem.

Nas minhas inquietações encontrei um texto, de autoria de Arthur da Távola, que me deixou ainda mais impactado e mais consciente do que é ser, verdadeiramente, cristão: 

“Estou inquieto porque Deus se esconde no instanteseguinte ao de cada percepção da sua existência;parece que Ele quer que sua procura seja incessante e nos faça melhores e mais ativos na busca,sendo, sempre, pessoas adiante e nunca pessoas antes. 

Estou inquieto porque a paz da contemplação da naturezae a minha comunhão com Ele também me advertemde que há tanto a fazer contra a miséria,o sofrimentoe a injustiça; de que não tenho direitoà paz interior; enquanto no meu paíscrianças morrem de fome e de doenças curáveis. 

Estou inquieto porque sou do Terceiro Mundo e pertenço a um país viável, possível,mas que sofre para amadurecere pertencer a seus habitantes”.            

Quando se pertence ao Reino de Deus, como filho amado de Deus, não se deve assumir uma postura escapista e se insensibilizar com as injustiças do agora e se conformar com este mundo tal qual como está, alegando que tudo será melhor no céu. Claro que tudo será melhor no céu, mas temos a tarefa de transformar o agora para começarmos a vivenciar os valores do Reino Celestial já nessa dimensão terrena. Também não adianta apenas dizer “palavras proféticas” para mudar tudo como num passe de mágica. É necessário inquietar-se e não se conformar com este mundo, mas transformá-lo.

É natural que o verdadeiro cristão seja inundado pela paz interior tão buscado pelos espiritualistas e só encontrada em Jesus. Mas se essa paz interior for sinônimo de insensibilidade, apatia  com tudo o ocorre ao redor, não é paz interior, mas o grave pecado da indiferença.           

Inspirado no texto de Artur da Távola, e contemplando tudo o que ocorre no nosso país e no mundo: guerras estúpidas, mortes prematuras, fome e doença num mundo em que ainda há abundância e novas tecnologias são desenvolvidas a cada dia, adultos irresponsáveis vitimando crianças indefesas, jovens sem perspectiva sendo captadas pela prostituição e pela marginalidade; ouso perguntar: será que temos direito à paz interior?

Márcio Rosa da Silva

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