É muito comum ouvir pessoas justificarem os males que há no mundo com a alegação de que se trata da vontade de Deus. “Deus quis assim”, dizem. Assim, dito desta forma, parece que Deus é cruel e tem prazer no sofrimento humano. Será que Deus deseja que meninas engravidem aos 10, 12 anos de idade? Será que Deus quer que, pela irresponsabilidade dos adultos, as “clínicas” de aborto continuem tendo clientes? Será que Deus determinou que crianças morram de fome ou como vítimas da estúpida violência do mundo adulto? Deus desejou, na eternidade, que jovens da nossa cidade morressem vítimas da violência urbana e no trânsito? Deus realmente almejou que pessoas destruíssem a própria vida e a dos seus familiares por causa do vício escravizante das drogas e do álcool? Será que Deus ordenou, por sua vontade, que jovens vendam seus corpos nas esquinas da cidade? Deus foi quem ordenou as guerras absurdas e sanguinolentas que insistem em acontecer, como uma demonstração de que ainda somos bárbaros? Deus quis assim?

Afirmar que tudo o que acontece é a vontade de Deus pode levar à irresponsabilidade, pois isenta o ser humano de assumir a conseqüência de suas  decisões. A culpa de tudo é de Deus mesmo, então não há nada que se possa fazer para mudar as coisas, afirmam alguns. Essa postura diante da vida leva ao conformismo e ao comodismo, que, fatalmente, levará à inércia.

Há muitas coisas na vida que acontecem independente da vontade da pessoa, mas boa parte da vida é feita de escolhas. A pessoa humana é dotada de liberdade para escolher entre o bem e o mal, entre a vida e a morte. A responsabilidade pelo que acontece no mundo deve ser compartilhada por todos os seres humanos. Todos somos culpados. Se o mundo não é a maravilha que deveria ser, a culpa é nossa mesmo. A maldade humana, e não Deus (que é, essencialmente, amor), provoca os males que descrevi no início deste texto. 

Mas, se o ser humano usa de sua liberdade para fazer o mal, acredito que essa mesma liberdade pode ser usada para construir novas realidades, mais bonitas do que a experimentamos agora. Podemos sim, como diz o escritor Ricardo Gondim, ser artesãos de uma nova história. Fomos capacitados com poder de opção e com capacidade de fazer o bem e agir de modo a tornar esse mundo melhor, ou pior.

É preciso compreender que não se pode jogar a responsabilidade de tudo o acontece para Deus ou para o destino. Se a vida impõe coisas ruins e inevitáveis, cabe a cada um escolher como vai reagir a elas. Se o mundo não está como deveria estar, cabe a cada um de nós tentar mudá-lo. Querer que a vontade de Deus seja feita aqui na terra como ela já é feita no céu, e agir para que isso aconteça, é a melhor forma de servir e glorificar a Deus.

Cabe a você escolher que tipo de postura terá diante da vida. Cabe a você escolher entre atitudes destrutivas e atitudes de vida. Escolhe, pois, a vida!

Márcio Rosa da Silva

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