Uma vez um amigo me interpelou com uma pergunta desconcertante: “Afinal, Márcio, Jesus veio me salvar de quê?”. Confesso que dei uma resposta evasiva, conforme o catecismo cristão evangélico e fugi da conversa. Disse alguma coisa sobre a vida após a morte, algo sobre o inferno e só.

Percebo que não é só esse meu amigo que faz o mesmo questionamento. Muitas pessoas olham para o nosso cristianismo e não vêem muito sentido nas respostas pré-fabricadas sobre céu e inferno e sobre um Reino que só será conhecido após a morte. E o que é pior, com a multiplicidade de meios de comunicação e o uso dessas mídias para fazer propaganda religiosa, às vezes tenho a impressão que Jesus virou um “produto” e os “vendedores” fazem um esforço tremendo para tornar o tal produto o mais atrativo possível para o “consumidor” final. Uma lástima.

Hoje eu diria ao amigo que, sim, somos salvos para uma esperança no porvir, uma vida eterna com Deus, que nos é dada gratuitamente por Jesus. Essa esperança nos anima, traz segurança e ameniza o medo que todos têm da nossa inimiga mais dura e traiçoeira que é a morte. Assim a morte não é um ponto final, mas a continuação de nossa história, agora numa dimensão em que temos comunhão plena com Deus. Deste modo, Jesus nos salva para uma vida após a morte.

Mas, não é só isso. Jesus nos salva para uma vida ANTES da morte. Ele disse que veio para que tivéssemos vida plena, em abundância. É claro que isso não pode ser traduzido como uma vida de riquezas e bens materiais, isso seria um insulto para com a boa nova do evangelho. Uma vida plena tem aquele que descobriu o verdadeiro sentido da vida: amar a Deus, ser amado por Ele e espalhar esse amor através da própria vida.

Para termos essa vida plena, precisamos ser salvos pela vida de Jesus. Sua vida é modelo para nós. Nossa vida não se resume ao nascimento, uma possível conversão e a morte para a glória eterna. Colocar em prática os ensinos de Jesus sobre amor, perdão, misericórdia, compaixão, serviço, humildade, honestidade, pureza e justiça é o que se espera de qualquer cristão. Se o chamamos de mestre, não podemos apenas ouvir suas palavras, precisamos vivê-las. E a vivência prática dos ensinos de Jesus, de sua mensagem e de seu exemplo é que me salvará de uma vida antes da morte para amar a Deus, ser amado dele e refletir esse amor aos outros. Ignorar seus ensinos e exemplo nos deixará perdidos em nossa própria vida. Precisamos ser salvos.

Finalmente, diria que Jesus veio nos salvar de nós mesmos. Percebemos, nos evangelhos, que Jesus desmascara a maldade humana, a mesquinhez sórdida, a religiosidade hipócrita. Também nos confronta com nossas dúvidas e nossa instabilidade. Mas também é empático com nossa fragilidade e nossa dor. Mas, apesar de nós mesmos, ele diz que veio oferecer sua vida como demonstração de amor e que há esperança para quem quer que se deixe transformar por esse amor.

Márcio Rosa da Silva

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