O templo estava lotado como poucas vezes havia se visto. Havia um clima de expectativa diferente dos outros cultos dominicais. Era o culto de celebração da consciência negra. Já é o terceiro ano que realizamos tal evento, mas desta vez investimos mais energia na organização. Alguns dizem que essas datas são desnecessárias e que só servem para reforçar estigmas e preconceitos. Eu entendo que não, elas servem para trazer o problema à baila e fazer pensar a respeito. Sábado à noite reunimos a juventude para um bate-papo com dois militantes da causa negra, num momento de profunda reflexão, inclusive sobre os absurdos que as igrejas cristãs, protestante e católica, já cometeram contra os negros e sobre o pecado, contemporâneo, de tolerar ou estimular o racismo.

             Mas todos aguardavam o culto de domingo, quando faríamos uma liturgia com música negra, desde músicas em línguas africanas, passando por ritmos bem brasileiros, como timbalada e também influências da música negra norte-americana. Comemorações em datas específicas, como a da consciência negra e o dia das mulheres, por exemplo, servem como uma reparação simbólica. A igreja também precisa fazer reparações simbólicas, sobretudo porque durante centenas de anos, e até hoje acontece, tudo o que era de origem africana foi demonizado. Ritmos e instrumentos africanos, de percussão, no momento do “culto solene”, nem pensar, eram instrumentos “profanos”. Sempre que ouvi tal disparate, eu ficava a pensar: E como ficam os salmos, em especial o de número 150 que fala do louvor a Deus com todo tipo de instrumento, inclusive tamborins e címbalos?

             Uma vez li um texto da Bráulia Ribeiro, missionária entre povos indígenas em Rondônia, que me deixou impressionado. Ela conta de uma conferência em que um pastor orou repreendendo a cultura africana do nosso meio. Ela lamentou o fato e disse que, no mesmo evento, lhe deram vinte minutos para falar alguma coisa. “Num acesso de loucura pintei a cara de índia e disse que ainda veria o mesmo povo louvando ao som de centenas de tambores baianos numa timbalada poderosa e santa. Queixos se deslocaram do lugar, cabelos se arrepiaram de horror, mas inúmeras pessoas se sentiram “misteriosamente” livres para amarem quem são, suas músicas, suas danças, curtirem MPB e dançarem danças africanas em homenagem ao Deus que criou todos os povos[1]”.

            Além de me deixar impressionado, esse texto me encheu de sonhos. Sonhei, junto com a autora, sobre o dia em que veria uma timbalada poderosa e santa louvar a Deus. Quando preparávamos a programação para o “consciência”, como carinhosamente passamos a chamar tal evento, o Zezinho, nosso líder de música na igreja, disse que conhecia um grupo de garotos que se reuniam no Parque Germano, um grande local de convivência e esportes em nossa cidade, para ensaiar timbalada. Era o grupo Timbaê, parte de um projeto social de uma dessas pessoas que investem sua vida, sem nenhum interesse econômico ou político, somente por amor à arte mesmo. Então o Zezinho me perguntou se eles podiam fazer uma participação especial no culto, durante alguns louvores. Meus olhos brilharam e eu aceitei na hora. Eles ensaiaram muito, tocariam duas músicas, mesmo não sendo membros de igrejas evangélicas deram o melhor de si, porque afinal de contas, tocariam para Jesus (palavras deles).

            O dia, afinal, chegou. Muitos visitantes na igreja, uma decoração com motivos africanos, o grupo de louvor exuberantemente vestido com lindas roupas com detalhes alusivos à cultura negra, tudo preparado. Mas todos estávamos um pouco tensos, seria um culto diferente. Como a igreja reagiria? Mesmo adotando uma pregação não legalista, há muitas pessoas já idosas que talvez não compreendessem bem o que aconteceria ali. Mas, respiramos fundo e fomos lá.

             O louvor começou calmo, tranqüilo e envolvente. Após um tempo, eu e o Marco Aurélio, presbítero em nossa comunidade, subimos à plataforma. Ele leu o salmo 150 e eu li o texto da Bráulia, na parte que eu já citei um pouco acima. Quando eu terminei de ler (é claro que já estava ensaiado) os tambores ressoaram desde o fundo do templo e o pequeno grupo (eram uns dez músicos) veio pelo corredor central tocando seus instrumentos, fazendo um alarido que encheu todo o ambiente. O povo, que estava sentado, se levantou e começou a louvar a Deus com júbilo e a saudar aqueles instrumentistas com muita alegria. Ao chegar em frente à plataforma, junto com nosso grupo de louvor, começaram a tocar a música “A fonte de água viva”, um clássico do Adhemar de Campos, e toda a igreja louvou a Deus, com palmas e danças, ao som dos tambores do Timbaê. Eu quase não acreditava naquilo que estava se passando diante dos meus olhos. Estávamos, enfim, louvando a Deus com toda nossa brasilidade e nossa negritude. Enfim, as pessoas estavam se sentindo livres para louvar a Deus com palmas e danças, ao som de tambores, sem o medo de achar que aquilo era pecado, mas entendendo que era uma linda celebração ao Deus que criou todos os povos. Era um resgate da cultura africana no nosso meio. Exatamente o oposto do que queria o tal pastor mencionado no texto da Bráulia (tento imaginar qual seria a reação do sujeito se estivesse presente naquele culto).

             Após duas músicas em ritmo de timbalada, terminamos o período de louvor com canções no estilo spiritual, num ambiente de total adoração.

             Quando novamente subi à plataforma para pregar, imaginei que veria várias cadeiras vazias, achei que as pessoas sairiam escandalizadas. Respirei aliviado quando vi que todos ainda estavam lá. Falei sobre o amor de Deus que não faz distinção entre pessoas. Também disse à igreja que os cristãos falharão terrivelmente se não agirem com o mesmo sentimento e se não colaborarem para combater qualquer forma de racismo no meio de nossa sociedade. Após a reflexão bíblica, quando perguntei se havia alguém que queria caminhar ao lado desse Jesus que derrubou todas as barreiras de separação na cruz e com pessoas de todos os povos, tribos, línguas e nações, reinará eternamente, várias pessoas levantaram as mãos, num momento muito tocante do culto.

            Foi uma noite inesquecível. Jamais esquecerei como senti alegria e celebrei a Deus quando aqueles tambores rufaram. A minha oração era que as pessoas percebessem Deus a cada repique daqueles instrumentos. Acredito que minha oração foi respondida.

            Não sei se a Bráulia já teve o privilégio de ver uma timbalada poderosa e santa louvar a Deus. Eu vi. E foi lindo!

Márcio Rosa da Silva

Anúncios