Hoje eu acordei com vontade de sorrir, de fazer festa, de abraçar aqueles a quem amo, com vontade de dizer que amo. Quis trazer à minha memória o que pode me renovar a esperança. Tive vontade de ouvir e por em prática a música do Zeca Baleiro: “Por isso hoje eu acordei com uma vontade danada de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia, de beijar o português da padaria”.
Estou com vontade sair correndo num ritmo cadenciando para poder observar cada detalhe, sentir cada cheiro, ser acariciado pela brisa, me enriquecer com cada pessoa que passa, encher os olhos com um céu que quer me ensinar o que é azul. Deu-me vontade de abraçar meus queridos bem forte e olhar o rosto deles como o rosto de Deus sorrindo pra mim. Quero abraçar os que estão tristes na esperança de também refletir o rosto de Deus, sorrindo, para essas pessoas.
Não vou deixar que maus brasileiros, que povoam o noticiário, tirem-me o ânimo para viver. Não vou permitir que eles matem meus sonhos e roubem minha alma. Estou com ainda mais vontade de realizar belos projetos, trabalhar com mais afinco, amar com mais intensidade e anunciar com ainda mais ênfase as boas notícias do Reino de Deus. Também não vou permitir que lobos em pele de cordeiros, ou de pastores, que sob uma capa de piedade apropriaram-se do que não era deles em detrimento de miseráveis enfermos, façam desvanecer meu encanto com a pregação e com a igreja cristã.
Os dias são maus e há muitos motivos e notícias que podem me deixar triste. Sei que não posso simplesmente negar a realidade para um escapismo irresponsável. Mas não vou permitir que as mazelas humanas me façam descrer que o ser humano pode ser maravilhoso e refletir a imagem de Deus, ainda que em pequeninas proporções. Não viverei apenas lamuriando minhas muitas decepções, angústias, temores e desalentos. Não vou olhar apenas para o lado sombrio da humanidade. Chorarei cada decepção, tristeza, perda ou derrota, com grandes e abundantes lágrimas, mas também abrirei um sorriso largo cada vez que perceber próximo a mim alguém que me ama e que por mim também é amado. Assim vou perceber que há muitos motivos para sorrir.
Estou com vontade fazer coro com Vinícius de Moraes para dizer que “quero vivê-lo (o amor) em cada vão momento/E em seu louvor hei de espalhar meu canto/
E rir meu riso e derramar meu pranto/Ao seu pesar ou seu contentamento.
Vou esbravejar e me indignar a cada escândalo envolvendo os chupins da nação, mas vou me enternecer cada vez que perceber uma ação generosa e humana.
Não vou perder a capacidade de extrair da vida o melhor dela. Se o maior inimigo do homem é o próprio, também é o próprio que pode proporcionar alegria, demonstrar amor e fazer coisas dignas de aplauso e que refletem os propósitos do Criador. Vou aplaudir a professora abnegada e mal paga que ama o que faz e ensina como sacerdócio. Vou reverenciar pastores que se embrenham em grotões e anunciam uma mensagem transformadora, em troca de nada, pelo simples prazer de cumprir um chamado.
Colherei cada sorriso a mim dirigido como um ceifeiro que vai enchendo sua aljava com os melhores frutos, não sem antes responder generosamente com abundantes sorrisos e palavras boas.
Acho que, se eu reparar bem, ainda encontrarei muitos motivos para sorrir e celebrar. E assim farei.

Márcio Rosa da Silva

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