Oi pessoal.

O texto abaixo foi publicado na Folha de Boa Vista no dia 14.07.07 (http://www.folhabv.com.br/noticia.php?Id=26269).

Tentei escrever da maneira mais educada possível, mesmo assim gerou uma resposta um tanto raivosa (http://www.folhabv.com.br/noticia.php?Id=27610). Agora ganhei os adjetivos de “infeliz herege” e “herege blasfemador”. Bem, pelo menos estou em boa companhia: Lutero, Galileu Galilei e Ricardo Gondim também foram assim chamados. Rsrsrs.

Abraços a todos.

Um triste protesto.

         Li o documento da Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano, ratificado e confirmado pelo Papa Bento XVI, líder supremo da Igreja Católica, no qual se afirma que a Igreja de Cristo subsiste exclusivamente na “única” igreja católica apostólica romana, aquela que é liderada pelo Papa, “sucessor” de Pedro. Para as igrejas oriundas da Reforma Protestante deve ser negado o título de “igreja”, são apenas comunidades. O título de igreja deve ser aplicado exclusivamente à instituição presidida pelo bispo de Roma. Fiquei triste, é um evidente retrocesso.

         É desnecessário argumentar que a sucessão de Pedro como legitimadora de uma instituição é equivocada, em primeiro lugar porque não é preciso ser um exímio exegeta para compreender que a pedra sobre a qual a igreja está fundada é o próprio Cristo e não Pedro, Ele sim, Jesus, é a pedra angular rejeitada pelos construtores sobre a qual todo o edifício, a igreja, está edificado; em segundo lugar, porque essa sucessão acontece formalmente apenas na constantinização da igreja, no século IV; finalmente, porque a história mostra claramente que por esta sucessão já passaram santos homens, bons cristãos, mas também alguns polígamos, devassos e homicidas.

         Tal declaração também vem reafirmar o dogma de que fora da igreja não há salvação, o que não é verdade. Fora de Jesus não há salvação, mas não existe nenhuma instituição na face da terra que detenha o monopólio da salvação. A vida eterna, a salvação, a esperança, o novo nascimento, a conversão não são concedidos por nenhuma instituição, por mais antiga que seja, mas unicamente por Jesus.

          O documento reforça o dogma pelo qual quem pode interpretar corretamente as Escrituras é a igreja, através de seu legítimo representante, o Papa. Este seria uma espécie de oráculo, com um canal de comunicação privilegiado com Deus, dizendo o querer de Deus aos homens. Entendo que qualquer homem ou mulher que se veja como oráculo de Deus, representante exclusivo da divindade, ungido intocável e incontestável, não merece crédito. A igreja de Cristo é maior que a igreja católica, maior que as igrejas protestantes e maior do que qualquer instituição humana.

          A convivência, a comunhão, a palavra pregada, a liderança, o ensino, o discipulado, toda isso acontece através da igreja, que reúne pessoas de todas as tribos, línguas e nações e todas as épocas, conduzidas pelo Espírito Santo e ligadas à cabeça, que é Cristo. Somos então, corpo de Cristo, edifício do Senhor, lavoura de Deus, rebanho do seu pastoreio. Mas qualquer instituição que se diga exclusiva, única, superior às demais, está equivocada.

          Leio alguns autores católicos, que para mim são muito caros, e tenho aprendido lições preciosas com eles, mas nenhum deles afirma que sua instituição é a única que deve ser chamada de igreja. Estão na contramão de seu líder supremo. Por outro lado, conheço instituições evangélicas que se dizem as únicas corretas e verdadeiras, o que também é um disparate. A unicidade da Igreja de Cristo não é institucional, mas espiritual, desconsiderar isto é desconsiderar que a igreja é uma expressão da multiforme graça de Deus, com vários sotaques, múltiplas liturgias, variadas expressões de louvor, dons e ministérios.

           Prefiro reiterar os postulados da Reforma: todos podemos livremente ler e interpretar as Escrituras; a salvação não é monopólio da instituição igreja; temos livre acesso a Deus, sem interposta pessoa; o sacerdote não é imprescindível para o relacionamento com Deus; o único mediador entre Deus e os homens é Jesus.

         Então eu protesto contra o documento papal! Mas não me ufano deste protesto, não me orgulho dele, preferiria não ter de fazê-lo, porque estou protestando contra um retrocesso, algo que deveria ter ficado no passado. É apenas um triste protesto. 

 Márcio Rosa da Silva

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