“Não é a Deus que o homem procura, é sobretudo o milagre que ele procura” (Fiódor Dostoievski, in Os irmãos Karamazov).           

              Para todo lado que se olha se vê a mídia religiosa propagandear milagres: “Milagres! Milagres! Aos borbotões, de todos os tipos, para todos os gostos. Venha buscar seu milagre, temos um sob medida pra você!”            

              Fico imaginando Jesus utilizando-se do mesmo expediente: “Querem um milagre? Venham neste sábado para o sermão da montanha, vocês verão milagres em profusão!” Ou então talvez Ele dissesse: “Está precisando de um milagre? Hoje, às margens do rio Jordão o seu milagre espera por você!”

             Quem conhece minimamente o evangelho de Jesus Cristo sabe que tais cenas são impensáveis. Jesus nunca propagandeou milagres, pelo contrário, quando realizava algum, ele dava ordens expressas para que a pessoa que o recebera não contasse a ninguém. Certa vez ele manifestou descontentamento pelo fato de que muitos o seguiam por causa dos milagres e do pão multiplicado. Jesus sempre buscou a discrição, porque o Reino de Deus, anunciado por Ele, não é de poder, riquezas e milagres, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo.

            Usar milagres como chamariz para reuniões é algo absolutamente contrário à postura adotada por Jesus. Ele queria que as pessoas o seguissem por conta de sua mensagem, não por causa de algo que Ele pudesse fazer. A essência do evangelho é um relacionamento com Deus, tão somente porque Ele é Deus, não porque Ele pode fazer alguma coisa por mim.

            O autor da frase do primeiro parágrafo deste texto percebeu claramente essa inversão feita pelas pessoas, que procuram o milagre, pouco se importando com um relacionamento profundo com Deus.

            Imagine um pai que sempre diz sim para tudo o que seu filho pede, fazendo-lhe todas as vontades. É certo que esse filho será um eterno bebezão, mimado, imaturo, bobão, além de se tornar arrogante, ensimesmado, manhoso. Se Deus fizesse milagres o tempo todo e atendesse a toda sorte de oração interesseira, tornaria seus filhos num bando de imaturos. Mas o desejo de Deus, expresso na Bíblia, é que seus filhos sejam maduros e cheguem à estatura de homem perfeito, semelhantes a Jesus.

            Essa teologia não ensina ninguém a perder, apregoando que o cristão é invencível, vive sempre em triunfo. Daí, quando o sujeito passa por uma frustração, uma derrota, que são inafastáveis na vida de qualquer pessoa, ele não sabe lidar com isso. E na vida é preciso saber lidar com os altos e baixos. Esse é um alerta feito por Jessé Souza no excelente texto “É preciso saber perder”, recentemente publicado na Folha de Boa Vista.

            Num sentido contrário dessa onda que enfatiza os milagres, quero aprender a servir e amar a Deus ainda que nenhum milagre aconteça. Quero aprender a permanecer com minha fé inabalável mesmo quando Ele se mostrar ausente, quando eu estiver passando por um deserto existencial. Servir a Deus por nada, viver por fé e não por vista, lembrando que fé é a prova das coisas não se vêem, e o fundamento das coisas que se esperam. Quero aprender a manter-me crente, mesmo quando não estiver enxergando nenhum sinal, milagre ou maravilha. Quero aprender a ser um filho que sabe ser amado por um Pai amoroso e bom, mesmo que Ele não atenda todos os meus pedidos. Quero ser um filho semelhante a Jesus, que mesmo na mais aguda angústia, preferiu pedir o cumprimento da vontade do Pai. Esse, sim, um verdadeiro milagre!

 Márcio Rosa da Silva

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