E se você chegar ao céu e em vez de um velhinho de barba branca sentado no Trono, você vir um Deus negro? E se em vez de clarins ressoando na sua chegada, você ouvir tamborins? E se em vez de um coral com anjos lourinhos ou ruivos de cabelos encaracolados cantando de maneira contida, você encontrar um grupo de cabelos em trancinhas, da cor da noite, tocando louvores a Deus em ritmo de timbalada? Você ficaria surpreso? Muitos ficariam chocados. Fazemos uma imagem de Deus como se Ele fosse europeu, branco, de barba branca e bochechas vermelhas, como o Papai Noel. Isso porque queremos imaginar Deus segundo a nossa imagem e semelhança. Ou pelo menos a imagem que nos foi passada. Deus é Espírito. Então não é branco, negro ou amarelo, Ele é Deus.

Imaginar Deus negro pode despertar um sentimento que na maioria das vezes fica encubado, guardado, latente, uma forma abjeta de preconceito: o racismo. Dia 20 de novembro é o dia da consciência negra. Num país que faz questão de esquecer que tem uma dívida histórica com o povo negro, é um alento saber que algumas cidades colocaram essa data comemorativa no calendário, em alusão a Zumbi dos Palmares. Ainda que seja somente uma data simbólica, é uma oportunidade de lembrarmos que para uma consciência ser boa não precisa ser branca, pode ser negra. Serve para nos despir de expressões claramente racistas repetidas à exaustão, como: denegrir (tornar negro), humor negro, magia negra, fulano é um preto de alma branca, etc. Por quê? O que é preto é ruim e o que é branco é bom? Bem, foi essa a lógica repassada por séculos de exploração do povo negro, mas que agora pode e deve ser rompida.            Aqui no Brasil temos o Zumbi dos Palmares, líder quilombola que almejava a libertação de seu povo. Nos Estados Unidos há um feriado nacional em homenagem ao Reverendo Martin Luther King Jr., líder de uma revolução pacífica contra a segregação racial naquele país. Foi ele que diante de uma multidão, falando das escadarias do Memorial Lincoln em Washington, disse a célebre frase: “Eu tenho um sonho!”. Sua voz foi calada anos mais tarde por uma bala, mas seu sonho continuou vivo e aquele país nunca mais foi o mesmo depois dos inflamados discursos daquele pastor e de sua resistência pacífica a todas as agressões sofridas.           

Entretanto, tanto lá como cá ainda existe muito racismo. Recente pesquisa publicada na Folha de São Paulo revela que os negros ganham, em média, metade dos salários dos brancos. Isso no Brasil, país que se orgulha em afirmar que não há segregação racial. Essa é uma forma terrível de segregação. O percentual de estudantes negros nas universidades ainda é muito pequeno. Ainda existem muitas barreiras para que pessoas negras cheguem a posições de liderança, sejam guindados aos tribunais, eleitos para o legislativo, ou mesmo em posições de chefia em empresas privadas. Isso é revelador. Mostra que o preconceito ainda existe e é transformado em práticas de segregação.            

Precisamos mudar. Sei que as pessoas têm dificuldade de aceitar o diferente, mas é preciso saber lidar com as diferenças para que elas não sejam motivo para discriminação. Caetano, na célebre canção que escreveu em homenagem à São Paulo, quando ele vai dizer que estranhou a cidade assim que chegou, confessa: “É que Narciso acha feio tudo o que não espelho”. Ou seja, se não é igual a mim eu rejeito, discrimino.            

Temos que nos espelhar em Deus, que não faz acepção de pessoas. Não é seletivo e não valoriza uns em detrimento de outros. Ama a todos, indistintamente. Se você se diz cristão, mas discrimina o outro pela cor de sua pele, ou por qualquer outro motivo, deve arrepender-se de seu pecado e mudar sua prática. Racismo, além de ser crime, é pecado!

Márcio Rosa da Silva

Anúncios