Tenho acompanhado a justa preocupação de setores da imprensa, em especial deste veículo, com a problemática da infância e da juventude de nosso Estado. Tenho trabalhado nesta questão diariamente por mais de quatro anos. Não vou aqui neste espaço tratar de eventos pontuais, mas trazer aquela que tem sido minha inquietação maior: qual a origem de tudo, o que leva um adolescente a delinqüir e uma criança a pedir esmolas. A resposta é complexa. Passa pela inarredável responsabilidade do Poder Público, de todas as esferas, que teima em não cumprir o preceito constitucional da “Prioridade Absoluta”, preferindo o que dá mais visibilidade a investir maciçamente na infância e adolescência.             Sem diminuir tal responsabilidade, quero chamar a atenção para um outro ponto: a estrutura familiar. Na minha experiência, tenho visto que a maioria dos jovens infratores vem de uma família desestruturada, na qual não há afeto, carinho, segurança, educação – no sentido mais elementar da palavra. Não se diga que essa desestrutura é conseqüência unicamente da pobreza. Isso seria dizer que a pobreza é causa da delinqüência, e não é. Eu mesmo, e muitos dos leitores certamente, venho de uma família que já passou por momentos de penúria, nem por isso caí na marginalidade. Por quê? Porque havia uma estrutura na família, que me levou a trilhar outro caminho.           

Esse desmantelamento da família também tem muitas causas: um consumismo exacerbado, estimulado pela mídia, que leva o sujeito a ser valorizado pelo que tem e não pelo que é. O ter é mais importante do que o ser; uma erotização absurda, que leva adolescentes sem o mínimo de amadurecimento a aventurar-se sexualmente, gerando muitas gravidezes na adolescência; passa também pela falta de esperança, ao desalento quanto ao futuro, que pode conduzir ao uso indiscriminado do álcool e às drogas; por fim a falta de afeto que faz da família, do lar, um ambiente inóspito, frio, indesejável. O presidente Lula, em recente pronunciamento alertou para isso. E esta lista que fiz não é exaustiva.           

Se o pai não existe ou quando existe não é presente ou vive embriagado, se a mãe prefere dar razão ao companheiro e expulsa o filho de casa, se o ambiente não tem o menor calor humano, nem apresenta segurança emocional, o que esperar de um adolescente egresso dessa família. É claro que há casos de adolescentes infratores que são de famílias bem ajustadas, não me refiro a esses, que são minoria.            Conheço famílias que mesmo repartindo uma porção de farinha, com um pouco de sal e umedecida em água morna, continuam unidas e produzindo um ambiente de carinho, afeição. Já fui recebido numa casa na qual a anfitriã não tinha café para oferecer. Ela não teve dúvida, ferveu água e serviu água quente com açúcar e até hoje me lembro, com lágrimas nos olhos, do carinho e da atenção daquela velha senhora. Aquela era uma família que sabia conviver com a carência do mínimo de mantimentos e conforto, diminuindo em muito as chances de produzir um adolescente infrator.            

Penso que a sociedade, o Poder Público, as Ongs, as Igrejas, precisam investir mais na família, na tentativa de ajudar as pessoas a valorizar os laços afetivos da família, para que ela seja sempre um porto seguro, onde o amor é incondicional e onde se aprende princípios que serão levados para a vida toda.

Márcio Rosa da Silva

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