Já fiz o teste: basta ficar dois míseros segundos parado, após o sinal verde do semáforo, para que o motorista detrás buzine e, se for mais mal educado, solte alguns palavrões. Ninguém tem paciência. A vida contemporânea é muito corrida. E vai ficar cada dia pior. Os apetrechos e bugigangas tecnológicas nos deixam cada vez mais perto de tudo, o que é uma benção, mas também nos faz viver num ritmo alucinado, o que pode ser uma maldição.

Nós desaprendemos a esperar. Não faz muito tempo, tínhamos o hábito de nos corresponder por cartas, que demoravam dias para chegar ao destino, então aguardávamos com grande expectativa o dia em que o carteiro viria com a carta-resposta em sua mão. Então nos deliciávamos lendo aquela “missiva” (alguém se lembra desse termo?) escrita de próprio punho pela pessoa distante, que imprimia ali parte de sua personalidade e sentimentos. Todo esse processo era demorado e exigia paciência de ambas as partes. Agora uma “e-carta” chega em tempo real lá do outro lado do mundo, e se a pessoa demora alguns minutos para responder ou para nos dar atenção do outro lado de um programa de bate-papo virtual, já ficamos chateados.

Queremos que tudo funcione rapidamente e a contento. Se não funciona no ritmo que nós queremos, então não serve para nós. Então vamos procurando aquilo que melhor atenda aos nossos caprichos e à nossa pressa.

O problema que essa prática acaba sendo adotada também no campo religioso. De modo que o homem pós-moderno acaba procurando uma religião que atenda aos seus interesses, quer um “deus” que atenda aos seus caprichos e “funcione” no seu ritmo. Temas como devoção, contemplação, adoração e espiritualidade são desconhecidos desse tipo de religiosidade. Uma espiritualidade desinteressada, baseada apenas no amor e na gratidão é ridicularizada. Recentemente, um pastor televisivo, conhecido nacionalmente, no pior estilo “ratinho dos evangélicos” disse que aquele que entrega ofertas financeiras apenas por amor e gratidão é “trouxa”, porque, segundo ele, tem que dar esperando receber muito mais em troca.

Não se quer esperar, porque isso requer paciência, e não se tem paciência, porque isso implica, necessariamente, num aprendizado através da dor e do esforço. O apóstolo Paulo escreveu que é a tribulação que gera a paciência. Mas ninguém está disposto a enfrentar sofrimentos para então ser paciente. Queremos pular essa fase e já ir direto para glória, sem ter de esperar e aprender. Um autor que me é muito querido, chamado Henri Nouwen, um sacerdote cristão já falecido, mas que dedicou os anos finais de sua vida a cuidar de uma comunidade de enfermos e desvalidos, escreveu, no livro Transforma o Meu Pranto em Dança, que nós “gostamos de vitórias sem esforços: crescimento sem crise, cura sem dores e ressurreição sem a cruz. (…) A cruz, o símbolo principal de nossa fé, convida-nos a ver graça onde há dor; a ver ressurreição onde há morte.”

Sem paciência não há perseverança nem esperança, virtudes cardeais do cristianismo. E sem enfrentar o dia-a-dia com tudo o que de bom e de ruim existe, sem entender que o sofrimento é um traço comum a todos os seres humanos, ricos e pobres, não haverá paciência, pois não haverá aprendizado. Essa negação da dor e do sofrimento que existe na religiosidade “fast-food” que predomina nos meios de comunicação não guarda nenhuma semelhança com o cristianismo bíblico. Preciso aprender a sorrir com intensidade e celebrar os momentos de alegria, mas preciso aprender chorar as lágrimas dos momentos de dor e tristeza que inevitavelmente virão. Jesus mesmo disse que são bem-aventurados os que choram… Assim vou aprender a esperar com paciência o dia glorioso em que Jesus virá como sol rompendo a noite e trazendo justiça sob suas asas.

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