O ser humano é instável, ambivalente, oscilante. Quem nega isso, nega sua própria humanidade. Alternamos momentos de bravura e destemor, com momentos de fraqueza vergonhosa. É claro que quando isso é uma rotina em espaços de tempo cada vez mais curtos, talvez se trate do que a psicologia moderna chame de transtorno bipolar (então é necessário ajuda profissional). Eu estou me referindo a essas oscilações tão próprias da natureza humana, não as patológicas.

Um grande personagem bíblico, chamado Elias, que foi profeta do Senhor também passou por essas oscilações, quando, logo após fazer cair fogo do céu e aniquilar os profetas de Baal, fugiu de Jezabel, escondendo-se numa caverna. Ali ele pediu ao Senhor que o levasse. Será que Elias estava depressivo? É possível. Como não sou psicólogo, posso afirmar apenas uma coisa: Elias estava com o coração aflito, com a alma angustiada.

Ele teve medo. Na verdade o medo, quando dosado, é absolutamente saudável, eu diria que é necessário, porque é um sentimento de preservação da própria vida. Entretanto, torna-se um problema quando é descontrolado, quando empurra a pessoa para a clausura, fazendo que ela deixe de viver por causa do medo. E uma pessoa assim é uma pessoa que não se arrisca, e quem não se arrisca não vive, porque viver é correr riscos, sempre.

Elias teve medo quando recebeu um recado de Jezabel, dizendo que iria matá-lo. O que é intrigante aqui é que Elias está irreconhecível. Cadê aquele homem destemido, profeta cheio de autoridade, que desafiou os profetas de Baal, alguns momentos antes?

Elias fugiu da vida, se isolou e pediu a morte, que era um outro sintoma dessa aflição da alma, presente na vida de muitas pessoas hoje. Sem saber como enfrentar a vida, pensa-se em fugir dela. Foi o que Elias fez, primeiro fugiu para longe, depois entrou no deserto, por fim, escondeu-se numa caverna. Na caverna orou e pediu a morte.

Quando isso é muito profundo, chega-se ao absurdo do suicídio. Quando se perde o impulso de vida, quando não há mais elã, quando nada mais faz sentido e a pessoa tem medo da vida. Aí então se percebe que ter medo da morte é ruim, mas pior ainda é ter medo da vida. Muitos não têm medo da morte, mas tem medo da vida.

É preciso enfrentar a vida. Por isso que gosto da música “Brincar de viver”, de Guilherme Arantes, que fica ainda mais poética na voz de Maria Bethânia: “Quem me chamou, Quem vai querer voltar pro ninho, E redescobrir seu lugar, Pra retornar, E enfrentar o dia-a-dia, Reaprender a sonhar, Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim, Continua sempre que você responde sim à sua imaginação, A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não, Você verá que a emoção começa agora, Agora é brincar de viver, E não esquecer, ninguém é o centro do universo, Que assim é maior o prazer, Você verá que é mesmo assim, que a história não tem fim, Continua sempre que você responde sim à sua imaginação, E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho, Como eu sou feliz, eu quero ver feliz, Quem andar comigo”.

Finalmente, lá na caverna, Elias ouve a voz de Deus que o chama para fora e lhe fala através do murmúrio de um vento suave. Elias então se refez com a voz consoladora e fortalecedora de Deus. Você também não está só, mas precisa sair da clausura existencial e não ter medo de viver. Deus não te abandonou. Ele está sempre disposto a apostar em você, quantas vezes forem necessárias. Não importa quantas vezes você tenha falhado. Não se preocupa com o seu desempenho. Ele não segue a mesma lógica do mundo e da religiosidade pagã, Ele tão-somente espera que você queira ser amado dele.

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