Eu passeava pelo centro histórico de Salvador, cidade linda, de um povo maravilhoso e acolhedor como só ele mesmo, quando observei que algumas das antigas igrejas não possuíam uma das torres. Os templos eram compostos por duas torres, onde ficavam os sinos, mas algumas tinham apenas uma torre. O guia que estava no meu grupo, também formado em história, explicou que os templos concluídos deviam tributo à coroa portuguesa, mas os que estivessem em construção, não. Então os brasileiros utilizavam daquele subterfúgio para não pagarem o tal tributo. Faltando uma torre, a igreja não estava oficialmente pronta e, portanto não era devedora. Não sei se a explicação é verdadeira, mas demonstra bem claramente o que hoje chamaríamos de “jeitinho brasileiro”, aquelas formas expertas de burlar a legalidade e escaparmos de algumas dificuldades impostas a todos os cidadãos. O problema é que isso acaba forjando uma característica nada desejável no caráter das pessoas: a hipocrisia – parecer algo que de fato não se é. Lembra-se dos santos do pau oco? Por fora santos venerados pelo povo, por dentro, receptáculo de contrabando de ouro e pedras preciosas.

Um outro dado histórico que mostra bem esse traço do caráter brasileiro é o que ocorreu com os cristãos-novos. Os judeus fugiram da Espanha para Portugal por causa da inquisição. Quando chegaram em Portugal, suprema desgraça, a inquisição também estava lá. Tiveram que se converter ao cristianismo, mas o fizeram só por fora. Na rua, publicamente, eram cristãos, em casa eram judeus. Ou seja, havia uma dissonância entre a vida pública e a privada – uma verdadeira hipocrisia.

Há pessoas que não passariam em nenhum teste para atuar em dramaturgia, mas são verdadeiros atores. A palavra hipócrita, do original grego “hypokrités”, significa, literalmente, ator. Depois, historicamente, passou a designar pessoa dissimulada, falsa. Publicamente, uma pessoa honesta, proba, íntegra, na vida privada, entre quatro paredes, o extremo oposto. Ah, se viesse à tona o que ocorre nas alcovas. Imagine se o que acontece na clandestinidade se tornasse público.

O verdadeiro cristão não usa máscaras, mas é verdadeiro em tudo o que faz, em público ou na vida particular. Não é possível ter um procedimento quando está no templo, no ajuntamento com outros cristãos e em casa ser uma pessoa completamente diferente. Não consigo entender como é que ainda há pessoas que fingem ser fiéis a Deus, mas não o são quando distantes ou fora dos olhares de seus irmãos ou líderes. Os cristãos-novos, vá lá, eram obrigados a fingirem, senão morreriam na fogueira da inquisição, mas na atualidade e aqui no Brasil isso não é necessário. Se não quiser ser cristão ninguém obrigará você a isso. Mas, por favor, se você disser que é cristão seja pelo menos sincero, já que ser perfeito é impossível. Não vista uma máscara, não seja hipócrita, não queira receber todos os benefícios de uma vida cristã, sem querer renunciar práticas contrárias à Palavra de Deus. Seja verdadeiro. Venha para luz, para que tudo seja manifesto e você viva plenamente em Cristo Jesus. Assuma seus erros, mas queira acertar, entregando todos os seus caminhos a Deus e permitindo que seu caráter seja transformado para ser semelhante ao do Senhor Jesus. Isso não se faz com palavras mágicas, quebra de encantamentos ou coisa do tipo, isso só é possível num coração convertido e desejoso de ser mudado. Que assim seja na sua vida.

Anúncios