Para mim, João Batista sempre foi um dos personagens mais intrigantes dos evangelhos. Homem de hábitos espartanos, vivia no deserto, vestido de pele de camelos e comendo gafanhotos e mel silvestre. Foi incumbido de ser o precursor do Messias, que viria adiante dEle endireitando as veredas do Senhor. E o fez pregando o arrependimento e a conversão. Jesus deu testemunho dele dizendo que dos nascidos de mulher não havia surgido nenhum maior do que João Batista. Ou seja, era o homem mais importante depois do próprio Jesus.

Sendo o escolhido para ir adiante de Jesus, João poderia se ufanar de sua grande importância, poderia fazer propaganda de si mesmo e do seu grande poder, poderia até começar a cobrar para demonstrar tal poder. Entretanto, a mensagem de João Batista não era de sinais, prodígios e maravilhas, aliás, a bíblia não registra nenhum milagre operado por ele, mas de arrependimento e conversão. Ele não sucumbiu a tentação de pensar que ele tinha algum poder em si mesmo, nem tirou vantagem pessoal de ser um instrumento de Deus.

Quando começamos a servir a Deus em qualquer ministério, e percebemos que podemos ser instrumentos dEle, somos tentados a achar que somos mais importantes ou melhores do que realmente somos. É por isso que precisamos saber que por mais linda que seja a obra que Deus esteja fazendo através de nossa vida, somos apenas servos, Ele é o Senhor. E João sabia disso. Quando alguém lhe perguntou quem ele era, ele respondeu: “Sou uma voz que clama no deserto”. Assim o próprio se definiu: apenas uma voz. Não ostentou nenhum título. Não reivindicou nenhuma característica especial de santidade ou autoridade espiritual. Definitivamente não queria aparecer. Bastava apenas ser uma voz para anunciar o arrependimento. Ele sabia sair de cena, para que Jesus aparecesse. Outra vez ele disse: “É necessário que ele (Jesus) cresça e que eu diminua”.

Infelizmente esta não é a mesma postura de alguns pseudo-evangelistas contemporâneos, que fazem questão de ostentar seus muitos títulos antes do nome, amam ser aclamados em público, querem sempre os melhores e mais destacados lugares, querem receber honra e serem idolatrados, ainda que não admitam isso. Não querem mais ser apenas uma voz, querem ser uma voz, um rosto, uma marca, uma grife. Sim uma grife de “poder e unção”. E o que é pior, eles lucram com isso.

Como se não bastassem os cantores gospel fazerem do “louvor” uma fonte de lucro e um mercado como qualquer outro, inclusive com aquelas exigências absurdas que toda celebridade faz para se apresentar, agora há também pregadores promovendo “shows”, fazendo daquilo que deveria ser o anúncio de arrependimento e conversão, um espetáculo performático. E cobram por isso. E a bíblia já diz que não se deve fazer do ministério fonte de lucro.

O mundo não precisa de mais estrelas que queira dar espetáculo em nome da fé e ainda lucrar para isso. O mundo não precisa de milagreiros que estimulem o povo a se aproximar de Deus pelo puro interesse em conseguir alguma coisa ou pelo deslumbramento com o que é místico. O mundo carece desesperadamente de mais vozes íntegras que estejam dispostas a clamar no deserto uma mensagem centrada em Jesus e na qual Ele apareça e apenas Ele seja glorificado. Uma mensagem que enfatize a graça e o amor de Deus e o servir a Deus sem desejar nada em troca, mas pelo simples prazer de servi-lo e ser amado dEle. Homens e mulheres que estejam dispostos a ser apenas uma voz. Alguém está disposto?

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