O pastor estava saindo da igreja, quando, com uma cara nada boa, pediu oração a um diácono: “Ore por mim, amigo, não estou bem”. De passagem por ali, uma senhora ouviu o pedido de oração e “piedosamente” foi comentar com suas amigas de alcova que precisam muito orar pelo pastor, pois ele dissera que não estava bem, e pela expressão de seu rosto o caso era grave, talvez adultério. Daí então cada um foi aumentando um ponto até que o conselho da igreja foi convocado para tomar as devidas providências contra o pastor, pois o mesmo tinha praticado o grave pecado de adultério. Convocado a se explicar, ficou surpreso com a acusação e disse que pediu oração ao diácono porque estava com um terrível desarranjo intestinal, por isso a cara de sofrimento. Bem, mas aí era tarde demais, os estragos estavam feitos e aquela comunidade nunca mais foi a mesma, com graves fissuras.

Essa estória vem ilustrar os terríveis males que uma língua ferina pode causar. Uma pessoa dada ao grave vício da fofoca pode destruir famílias, casamentos e até comunidades inteiras.

Não creio que as palavras tenham um poder mágico. As palavras não têm um poder intrínseco, de modo que uma vez pronunciadas, cumprem, inexoravelmente algo bom ou ruim. Crer desta maneira gera neuroses e chega a ser ridículo. Ninguém tem tanto poder assim. Entretanto as palavras proferidas podem ter um efeito devastador, dependendo da forma como são ditas, por quem e para quem são ditas. Se um pai diz ao seu filho de oito anos de idade, que ele é um burro e incompetente, é muito provável que essa criança tenha problemas em seu desenvolvimento. Não porque as palavras tenham um poder nelas mesmas, mas porque de um pai esperam-se palavras de estímulo, carinho, amor, correção, mas não palavras tão terríveis quanto estas.  Essa criança poderá vir a internalizar que é de fato um burro e incompetente e ter muitos problemas na vida adulta.

A Bíblia diz, em Tiago capítulo 3.4-5: “Vejam como um grande bosque é incendiado por uma simples fagulha. Assim também, a língua é um fogo; é um mundo de iniqüidade. Colocada entre os membros do nosso corpo, contamina a pessoa por inteiro, incendeia todo o curso de sua vida, sendo ela mesma incendiada pelo inferno”.

É preciso ter muito cuidado com o que se diz, pois as palavras podem ferir outra pessoa e com conseqüências irreversíveis. Assim como é impossível recolher todas as penas tiradas do enchimento de um travesseiro e que foram jogadas ao vento do alto de uma montanha, assim também, mesmo havendo arrependimento do falador, haverá danos irreparáveis, sempre.

Os três filtros, presentes em várias estórias, são sempre muito úteis. Se alguém vier lhe contar algo, com aquele olhar brilhante e aquela saliva no canto da boca, próprios dos que se deliciam ao espicaçar a vida alheia, submeta-o aos três filtros: verdade, bondade e necessidade. Ainda que seja verdadeiro, se não for bondoso ou necessário, dispense o sujeito. Será melhor assim. Guerras, contendas, inimizades, traições, mortes, tristezas, desencantos e ódios seriam evitados se as pessoas não falassem mal da vida alheia, ou pelo menos se se recusassem a ouvir tais coisas. O escritor de Provérbios diz (16.27-28): “O homem sem caráter maquina o mal; suas palavras são um fogo devorador. O homem perverso provoca dissensão e o que espalha boatos afasta bons amigos.”

Por outro lado, palavras adequadas, no momento oportuno, podem gerar vida. Use as palavras para gerar vida e não tristezas. Até porque, de uma mesma fonte não pode jorrar água doce e salgada, ou suas palavras servirão para abençoar e trazer alegria, comunicando graça aos ouvintes, ou não servirão para outra coisa senão para destruir e produzir o mal, uma verdadeira arma de destruição em massa.

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