É chocante ver alguém caminhando para o cadafalso, mesmo que seja Saddam Hussein. Saddam foi responsável por terríveis crimes, milhares de pessoas foram assassinadas por ele, que foi um dos mais sanguinários ditadores do século XX, século que foi pródigo em tiranos. Entretanto, por mais terríveis que tenham sido os crimes que ele cometeu, nada justifica a violência da pena de morte.

Saddam foi julgado por um tribunal de exceção, num país ocupado por forças estrangeiras. Por que não o submeteram ao Tribunal Penal Internacional? Ora, porque os Estados Unidos, que invadiram injustificadamente o Iraque, não são subscritores do tratado que criou tal corte sob alegação de que não iriam submeter nenhum cidadão americano a um tribunal internacional. Medo. O julgamento açodado e a execução em tempo recorde, só fazem aumentar a antipatia que o mundo tem com relação aos Estados Unidos.

É repugnante saber que quem arquitetou e patrocinou o assassinato oficial de Saddam foi uma nação que se declara cristã, de maioria protestante. Quão divorciada do Evangelho está esta postura belicista. Quão distante dos ensinamentos de Jesus está a vindita. Será que eles nunca leram que quem com a espada fere, com a espada será ferido? A morte de Saddam não vai resolver o problema da violência no Iraque, acredito que vai ainda recrudescê-lo.

Como o ser humano ainda é bárbaro. Sim, porque as demonstrações de alegria e celebração de alguns grupos após o anúncio da morte de Saddam, são demonstrações bárbaras, incivilizadas. É algo brutal, animalesco. Depois, as imagens gravadas em celular mostram que realmente não houve o menor respeito no momento da execução. Parece que voltamos à idade média. Meu Deus, em pleno século XXI ainda temos que assistir alguém com a corda no pescoço caminhar para o cadafalso? Que coisa grotesca. Ainda não evoluímos, ainda não somos civilizados. Somos bárbaros.

Com a pena de morte mata-se para provar que não se pode matar. É pagar a violência com mais violência, mesmo que legitimado pelo manto estatal. Comprovadamente, a pena de morte não é eficaz para a diminuição da violência e, de certa forma, é um prêmio, um alívio, para o condenado, como escreveu Cesare Beccaria, no século XVIII, na célebre obra “Dos Delitos e das Penas”. Este escritor entendia que o condenado deveria refletir todos os dias de sua vida, no cárcere, acerca dos crimes que cometeu.

Creio que o ditador Saddam teria que responder por todos os desmandos e pelas muitas vidas que ceifou, mas seu julgamento foi teatral e a pena aplicada bizarra. Em nada vai colaborar para a paz mundial, nem para a resolução do conflito estabelecido no Iraque. Colabora sim, para o enfraquecimento dos órgãos multilaterais como a ONU e as Cortes Internacionais. Mostra, ainda, que estamos (o mundo todo) sob o domínio de um império, que faz o que bem entende e não mede esforços para atingir seus objetivos. Ainda mais quando governado por um sujeito cínico e de uma visão limitada.

Aliás, quantas vidas já se perderam no mundo inteiro por ações, decisões e posturas do presidente dos Estados Unidos? Se forem aplicar o mesmo critério…

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