Márcio Rosa da Silva

Nunca vi com bons olhos o ensino religioso em escolas públicas. Conheço inúmeros líderes evangélicos e católicos que defendem ardorosamente a inclusão ou manutenção desta disciplina nos currículos escolares, em especial no ensino fundamental. Os argumentos são os mais variados: desde o desejo de formar no aluno um senso religioso e ético até o proselitismo mesmo, que pretende evangelizar crianças através desta matéria. É claro que, como cristão, desejo que o maior número de pessoas sejam evangelizadas, mas há um grande perigo na ministração de aulas de religião. Antes que o leitor amarre-me numa fogueira e ateie fogo, passo a justificar meu posicionamento.

1. Em primeiro lugar, não se pode transferir a responsabilidade espiritual sobre os filhos para a Escola, tal responsabilidade é dos pais, da família. Assim é a orientação bíblica: “Instrui o menino no caminho em que deve andar, e até quando envelhecer não se desviará dele.” (Provérbios 22.6). Quanto à instrução religiosa, essa obrigação é da família. Os pais devem ser o primeiro exemplo de oração, de santidade, de caráter, de submissão a Deus;

2. Em segundo lugar, como estratégia evangelística, o ensino religioso pode ser um verdadeiro “tiro no pé”. Ora, como esta disciplina tem de abordar a religião no sentido mais lato possível, deve abordar princípios de todas as religiões existentes. Assim, deve falar sobre o Cristianismo, com todas as suas variações (catolicismo, protestantismo e este com toda a sua diversidade), sobre o Islamismo, Budismo, Judaísmo, Espiritismo, Religiões Afro-brasileiras, etc., apenas para citar as mais importantes. Se você quer ficar mais escandalizado ainda, pense que se alguém disser que o satanismo é religião, pode muito bem reivindicar que este seja abordado também no “ensino religioso”. Na Inglaterra, estão exigindo que o ateísmo integre o currículo dos estudos sobre religião nas escolas públicas (revista Istoé nº 1794).

Agora imagine a cabeça de uma criança entre 10 e 14 anos diante de uma barafunda religiosa se apresentando diante dela. Antes que você condene minha posição faça a seguinte pergunta: Isso trará esclarecimento e direção ou apenas confusão? Não se deve esquecer que uma criança ou um adolescente está em situação peculiar de desenvolvimento, como diz a lei. É por isso que a família, no caso da criança ou a comunidade que o adolescente escolher é que devem ser responsáveis por forjar princípios e firmar valores, no que tange à religião.

3. Também deve ser mencionado que o Estado é e deve ser laico, devendo dar toda a liberdade para que o indivíduo escolha a religião que quer seguir. Não deve impedir a manifestação religiosa, mas também não deve permitir que sua estrutura seja utilizada para difundir esta ou aquela religião. Evidentemente que numa escola particular, onde os pais escolhem colocar os filhos, não há nenhum problema em ministrar um determinado conteúdo religioso, isto é uma opção dos pais.

Ainda há outros argumentos que poderiam ser mencionados, mas estes já são suficientes pelo menos para fazer o leitor refletir. Você que é cristão e quer que seus filhos trilhem pelas sagradas veredas de um relacionamento com Deus, não deixe tal responsabilidade para a Escola, assuma-a você, em obediência ao preceito bíblico: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; e as ensinarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te.” (Deuteronômio 6.6-7).

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