Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog.

Aqui está um resumo:

A sala de concertos da Ópera de Sydney tem uma capacidade de 2.700 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 17.000 vezes em 2011. Se fosse a sala de concertos, eram precisos 6 concertos egostados para sentar essas pessoas todas.

Clique aqui para ver o relatório completo

É sempre o mesmo sentimento: noutro dia começávamos o ano, ele parecia longo, tanto por fazer, tanto tempo pela frente e, agora, já passou. O tempo passa muito rapidamente, nós voamos com ele. O tempo passou e fizemos muitas coisas das quais nos orgulhamos e, certamente, muitas outras pelas quais nos arrependemos. O fato é que o que passou é imutável, não é possível alterar absolutamente nada. Mas é possível se apropriar desse passado para, como matéria prima, usá-lo para um futuro melhor. É importante olhar para o passado para aprender com ele. Talvez essa seja a única forma de realmente saber apreciar melhor a vida e o ano que começa daqui a pouco.

Aprendi com Ricardo Gondim que o tempo foge, que devo saborear os anos como o menino que saboreia as últimas jabuticabas de uma bacia, uma de cada vez, lentamente, apreciando cada uma. Quanto mais velhos ficamos, mais vamos dando valor ao tempo, porque ele vai escasseando, vai ficando, portanto, mais precioso. Daí porque temos que ter reverência pela vida e pelo tempo.

“Ensina-me a contar os meus dias, de modo que eu alcance um coração sábio”, foi a oração de um poeta bíblico. Contar os dias com sabedoria, não desperdiçá-los de maneira tola, mas, com inteligência, aproveitá-los ao máximo. Seguem alguns palpites para isso. Repito, são apenas palpites.

Não espere que chegue o dia em que finalmente você vai ser feliz. A felicidade é fugidia, são momentos, muitos deles pequenos, em que você a experimenta. Não espere que um emprego, um casamento, uma viagem, uma faculdade, farão você feliz. O que vai determinar se você vai ser feliz mesmo é o modo como você vai trabalhar nesse emprego, a disposição que você vai ter para uma vida compartilhada pelo casamento, o espírito com que você vai curtir a viagem, por exemplo.

Valorize pessoas mais do que coisas. No fim, serão pessoas que estarão ao seu lado quando você precisar. Ou não. Quem sempre valoriza coisas em detrimento de pessoas, corre o sério risco de ficar sozinho com suas coisas.

Seja mais indulgente com as pessoas, elas não são perfeitas. Assim como você, todas são imperfeitas, falhas, incoerentes. Mas é preciso amá-las assim mesmo, porque você precisa ser amado também. Não tenha expectativas mirabolantes, irrealizáveis, você vai acabar frustrado. Não cobre tanto das pessoas, do mundo e de você. Aceite o fato de que você é humano, e, portanto, inacabado e imperfeito. Assuma sua humanidade e seja autêntico.

Não perca a esperança. O amargo que você pode ter provado no tempo que passou não tira a capacidade do seu paladar de sentir o doce novamente. Por mais dolorosas que tenham sido as lágrimas que você derramou no ano que vai embora, há a possibilidade do riso feliz no ano que começa. Por maiores que tenham sido as frustrações, um novo tempo sempre é a possibilidade de novas realizações, novos sentimentos, uma nova postura diante da vida.

Celebre a vida sempre, celebre os pequenos momentos com as pessoas que você ama. Celebre o tempo que passou e o que está por vir.

Celebremos 2012.

 

Márcio Rosa da Silva

         Ouvi uma reportagem pelo rádio, em que a entrevistadora perguntava onde e como as pessoas passariam o Natal. Todas responderam que iam passar com a família. Algumas variações: “vou à igreja depois vou ficar com minha família”, ou “vou para uma festa, mas antes vou ficar com minha família”. Também ouvi um dizer que ia passar sozinho, porque estava longe da família, mas o coração dele estaria com a família. Ainda há os amigos, uma família fraterna, que se escolhe, mas igualmente ligada pelo afeto.

Natal é essa festa em que as pessoas se lembram da família, dos amigos, dos mais necessitados, fazem gestos de solidariedade. E isso é bom, ainda que de modo sazonal, ainda que pequenos, esses gestos são válidos. Bom seria que se repetissem durante todo o ano, mas se acontecem agora, já é alguma coisa. Há sempre uma esperança de que esse sentimento que acontece nessa época do ano se perpetue, ou, pelo menos, seja reavivado em algum momento do ano seguinte.

É claro que, como sempre, muitos de nós cometemos o erro de procurar o “espírito do Natal” nos lugares errados. Ou talvez fique melhor colocar a essência do Natal, o significado dele. Procuramos em shoppings, ou nas ruas comerciais apinhadas de gente aflita por conseguir comprar algo, ou nas celebrações grandiosas e majestosas que o mundo do entretenimento faz. Mas não o encontraremos nesses lugares. Esse foi o erro que os magos do oriente cometeram quando foram procurar Jesus. Foram direto para o palácio de Herodes, mas ele não estava lá. Depois de corrigirem o caminho, encontraram-no envolvido em panos, numa manjedoura (um cocho), numa estrebaria (um curral). Lugar improvável para o Filho de Deus.

Natal é a lembrança de que Deus não somente se fez homem e habitou entre nós, mas de que Ele se fez menino, uma criancinha, frágil, dependente, pequeno. Deus, de tão grande, se fez pequeno. Deus se batizou de humanidade, imergiu em nossa realidade de sangue, suor e lágrimas. E escolheu as coisas simples desse mundo para as quais conferiu importância.

Era desprezível o local onde o menino Jesus nasceu, mas o importante ali era o afeto que recebia de seus pais, afeto que se revelou em cuidado, carinho. Talvez por isso esse clima tão favorável à busca por um lugar cheio de afetos nessa época.

Ali nascia a esperança de dias melhores. Deus não abandonou seus filhos à própria sorte, mas veio até eles, tornou-se um deles, mergulhou no seu cotidiano, foi dependente de uma família, depois, quando adulto, experimentou toda complexidade das relações humanas, do que há de bom e do que há de mais perverso. Da solidariedade à traição.

Mas depois daquela noite, nada mais foi como era antes. Deus está conosco para sempre, imerso em nossa humanidade, presente em nossa caminhada e nos convidando a sermos como ele: humano, simples e pleno de amor e solidariedade.

Na noite de Natal, quando for levantar um brinde, seja em que ambiente for, num palácio ou numa casa simples, celebre a esperança contida no nascimento daquele que é Deus conosco para sempre. Isso é Natal. E é simples.

Márcio Rosa da Silva

A tentativa de fazer do outro um objeto, negando-lhe a condição de sujeito de direitos e, portanto, podendo fazer dele e com ele o que bem entender, esteve sempre presente na história humana. Caso não haja freios, aquele que está em posição de superioridade, seja física ou econômica, irá objetificar pessoas.

Foi assim com os escravos. Demoramos a nos livrar dessa deplorável mazela. O Brasil foi um dos últimos países a abolir formalmente a escravidão. O ordenamento jurídico permitia que pessoas fossem compradas. Escravos não eram considerados pessoas, eram objetos, propriedade de seus senhores. Eles trabalhavam sem receber salário, as escravas eram usadas também como objeto sexual de seus senhores, e eram submetidos a castigos corporais sempre que seus donos achassem necessário. Apanhavam, eram amarrados no tronco, levavam chibatadas, afinal, argumentava-se, eles não entenderiam nenhuma outra linguagem. Tinham que ter medo, obedecer, permanecer submissos e, para isso, o chicote era instrumento eficaz.

Com a evolução do Direito e da sociedade, as pessoas continuam tendo que trabalhar para outras, mas agora têm direitos, devem ser remuneradas, respeitadas. Isso é um pesadelo para muitos patrões que gostariam de continuar tratando seus empregados como vassalos. Enxergar no outro um sujeito de direitos é condição indispensável para que sejamos considerados civilizados.

Foi assim também com as mulheres (infelizmente ainda o é para muitas). Por muito tempo a mulher foi considerada um ser de segunda categoria e propriedade de seu marido. Tinha que servir àquele sem reclamar, fazer tudo o que ele mandasse, ser submissa, obediente e sempre disponível para o sexo. E caso tentasse se rebelar, podia apanhar do marido. Um objeto, não uma pessoa, uma propriedade, não um sujeito portador de direitos. Felizmente essa realidade mudou, pelo menos no plano jurídico. A lei já não considera as mulheres como seres de segunda categoria, ainda que muitos homens não gostem dessa nova ordem e queiram que velhos tempos voltem, em que eles eram senhores de suas mulheres. Tratar o outro como portador de direitos pode ser assustador para quem está acostumado a ver no outro apenas uma “coisa”.

Sobrou quem, então? As crianças. Estas são naturalmente frágeis, por algum tempo não conseguem sequer falar, não conseguem se defender, tendo em vista sua condição física em franca desvantagem com relação ao adulto.

Para muitos adultos elas devem ser tratadas como outrora foram os escravos e mulheres. Devem fazer tudo o que lhes for mandado, ainda que a ordem não faça o menor sentido, inclusive servindo como pequenos escravos em alguns casos e, se fugirem do que é esperado, devem apanhar, afinal, não entendem outra linguagem.

Felizmente as crianças estão protegidas, perante a lei, da exploração do trabalho infantil. Da mesma forma, a lei as protege daqueles pais abjetos que abusam sexualmente de seus filhos, transformando-os em objeto de satisfação de sua lascívia repugnante.

É chegada a hora de proteger as crianças daqueles que insistem em tratá-las como uma propriedade ou um objeto e que se acham no direito de agredi-las fisicamente, seja qual for o pretexto. Se agredir um adulto é crime, não é razoável concluir que agredir uma criança seja aceitável. Ela é um sujeito de direito, jamais um objeto. A disciplina é absolutamente necessária, mas no processo civilizatório em que uma sociedade evolui, outros caminhos não violentos devem ser possíveis.

 

Márcio Rosa da Silva

A mensagem trazida por Jesus tem um caráter subversivo. Ela não tem o propósito de trazer paz, como aquele sentimento que torna as pessoas com ar sereno e insensível ao que acontece ao redor. Ao contrário, tem o propósito de gerar inquietação nas pessoas. Não é uma mensagem de conformismo, mas o oposto. É para deixar as pessoas inconformadas com o atual estado de coisas para que, então, tentem transformar o mundo.

Quem quer paz de espírito, naquele sentido de insensibilização com todo o mal que acontece, tem que buscar outra religião. Em Cristo ficamos inquietos, queremos mudança, não nos conformamos com este mundo. Queremos uma revolução, porque cremos e pregamos uma mensagem que se choca com o sistema do mundo. Que é oposta à lógica mundana, que é oposta ao sistema perverso que impera no mundo.

A primeira subversão é colocar Deus acessível a todos. Aquilo que era monopólio da religião institucionalizada, agora é democrático, está ao alcance de quem quisesse. Deus não está mais distante, mas agora se fez homem como nós e se colocou no nosso nível, para ser um conosco, para ser Deus conosco.

Depois, é necessário compreender que a mensagem pregada por ele tem muito mais a ver com a vida antes da morte do que depois dela. Não é uma receita sobre como conseguir a vida após a morte, mas sobre como viver a vida aqui e agora. Em vez de dirigir nossa atenção para a vida além túmulo, nos céus, fora desta vida e para além da História, é preciso focar nessa vida, porque o Reino de Deus já chegou até nós e é pra ser vivido e experimentado aqui.

A subversão consiste em não nos conformarmos com a maldade deste mundo, com as injustiças, com a intolerância, com a miséria. O Evangelho é um chamado à transformação!

O mandamento de amar os inimigos e fazer o bem a quem nos odeia é absolutamente subversivo, porque se opõe à lógica dominante.

Jesus chocou, e ainda choca, a opinião pública, porque ele falou algumas coisas que não fazem sentido para o homem comum. Parece que nada tem a ver com a realidade. Mas são verdades revolucionárias. Posturas que, se adotadas, vividas, podem mudar, transformar o mundo.

Não mudaremos a realidade ao nosso redor decretando isso em 40 dias de oração, ou 30 dias de jejum, ou dando 7 voltas cidade durante a madrugada, nem amarrando demônios por decretos. Isso não vai mudar nada.

Mas no dia em que alguns, com firme propósito, passarem a viver um pouco do conteúdo da mensagem do Evangelho, uma mudança revolucionária estará a caminho.

Márcio Rosa da Silva

Idealizar demais uma pessoa ou uma instituição, seja ela qual for, é a receita para a decepção. Projeções sempre geram frustrações. E se quem é idealizado não quiser ser decepcionante vai ter que ficar se esforçando pra ser o que esperam dele e isso é escravizante, tira qualquer possibilidade de ser autêntico.

Barack Obama foi eleito sob uma aura de quase santidade, um messias. Muitas expectativas. Quase todas frustradas. Ele é apenas mais um presidente estadunidense, não um messias.

No ambiente religioso isso é ainda mais comum. Mitificamos o passado e criamos santos, é a hagiografia cristã. Imaginamos que os santos eram perfeitos e tinham sempre aquela auréola sobre a cabeça. Mas eles foram homens e mulheres, imperfeitos.

O protestantismo também tem sua hagiografia. Mitificamos Martinho Lutero, por exemplo. Ninguém tira os méritos do grande reformador, mas ele se mostrou um anti-semita no fim de sua vida. Escreveu textos destilando ódio aos judeus. João Calvino esteve às voltas com o julgamento e condenação de seu opositor Servetus, que acabou executado. Martin Luther King Jr, um dos meus heróis, quem diria, tinha problemas na área de fidelidade conjugal. Todos são heróis, “santos” protestantes, mas eram apenas humanos, falhos e sujeitos às mesmas dificuldades que qualquer um.

Pode ser chocante ter conhecimento disso, mas precisamos reconhecer que ninguém é perfeito. Somos humanos. Fomos criados assim. E Deus gosta de nós assim mesmo.

Quando criou a humanidade, viu Deus que era muito bom. Deus nos aprecia. Não apenas nos tolera, apesar de nós mesmos, mas aprecia sua criação. Nos ama mesmo, de verdade.

Jesus não idealizou seus discípulos, sabia quem eles eram. Eles não foram chamados por serem perfeitos, mas por estarem dispostos. Deixaram tudo para abraçar uma proposta de vida transformadora trazida por aquele nazareno. A obra de Deus não é conduzida por pessoas perfeitas, mas por pessoas dispostas.

Por isso, não idealize seu pastor ou sua pastora. Eles são apenas humanos. A oração deles não é melhor que a sua e ninguém garante que eles tenham mais intimidade com Deus do que você.

Não idealize sua igreja. Ela é apenas um grupo de pessoas tentando acertar. Um grupo de maltrapilhos que anseiam por Deus, por seu amor e por sua graça. Não há igreja perfeita, nem infalível. Igreja boa não é aquela que se diz perfeita, essa é diabólica. Igreja boa é aquela que faz as pazes com a humanidade de seus membros e abre espaço para que sejamos autênticos. Sem falsas expectativas, sem idealizações adoecedoras, sem projeções escravizantes.

Tem gente que idealiza o Evangelho, desumanizando sua mensagem e fazendo dele um instrumento de opressão através da religião. Mas o Evangelho é libertador justamente porque foi escrito para humanos, não para perfeitos. Esses não são humanos.

Até Deus pode ser idealizado. Quem projeta em Deus um super-homem que vai sempre livrá-lo das enrascadas, vai ficar decepcionado. Quem idealiza Deus como um Papai Noel celestial, que vai sempre dar presentes pra seus filhos que se comportarem bem, também vai se frustrar.

Deus é o amor que abraçou nossa humanidade em Jesus Cristo. Não é um super-homem ou um papai Noel. É Deus.

Por fim, não idealize a você mesmo. Reconheça: você é humano. A vida é frágil, você é imperfeito, não é blindado, nem um santo, mas apenas um ser humano composto de luzes e sombras.

Fazendo as pazes com nossa humanidade, a vida fica mais leve.

Márcio Rosa da Silva

Muitos de nós temos dificuldade de lidar com o novo, porque o novo é também o desconhecido. Um pensamento antigo por transmitir mais segurança, afinal, pensa-se, já serviu por tanto tempo e a tantas gerações, poderá servir para a nossa também. Será?

Imagine se nunca tivessem questionado o paradigma de a terra ser o centro do universo? Mas alguém questionou. Ainda bem. Agora tudo girava em torno do Sol. Mudou-se de novo, foram descobertos outros sóis, e outras galáxias e, mais uma vez, mudamos nossa forma de ver o universo. Mas muita gente foi pra fogueira por conta disso. É o medo do novo.

A novidade quebra as sólidas plataformas do “status quo”. E se nunca tivessem questionado as monarquias absolutistas? O paradigma da democracia substituiu o da tirania, o da ditadura. É claro que para desgosto dos que usufruíam das benesses do poder tirânico.

Quando se vai quebrar um paradigma, substituir um modelo, lançar outra plataforma, há sempre uma revolução, por assim dizer. E os donos do poder, seja ele político, científico, econômico ou religioso, nunca ficarão satisfeitos com a mudança.

No caso de Jesus, o que parecia só uma suspeita, agora fica mais evidente. Aquele pregador, vindo de Nazaré, queria estabelecer algo novo. Ele já vinha dando pistas. Em Caná, transformou água em vinho, e o vinho novo era melhor.  Um tempo depois, ele abriu o jogo. A partir de um questionamento acerca do jejum, que ele e seus discípulos não faziam, ele contou uma parábola: não se coloca vinho novo em odres velhos, senão estas vasilhas de couro estourarão após a fermentação do vinho.

Ele estava falando de uma mudança paradigmática. Ele veio estabelecer uma nova aliança, trazer uma boa nova, uma nova forma de enxergar Deus, de ver a vida, de se relacionar com Deus e com as pessoas.

O antigo sistema era de observância rígida de leis religiosas, de uma multidão de regras, de um emaranhado de ritos, que tendiam a escravizar as pessoas. A novidade trazida por Cristo caracteriza-se pela liberdade, por um relacionamento íntegro com Deus e com as pessoas, baseado no amor.

Nessa nova ordem, o verdadeiro jejum consiste em soltar as correntes da injustiça, partilhar a comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu e não recusar ajuda ao próximo, confirmando a máxima de que Deus quer misericórdia e não sacrifício.

O novo fundamento foi lançado por Jesus quando disse que o maior mandamento era o amor a Deus e ao próximo. E só se ama a Deus através do amor ao próximo, com ações práticas de solidariedade, generosidade, elegância, carinho, integridade, compaixão e não com ritos religiosos vazios.

Oportunidades não faltam para manifestar esse amor. Hoje, no mundo, há quase dois bilhões de pessoas na pobreza extrema, e ainda tem gente que fica exigindo de Deus um carro importado em oração. É muito cinismo, muito egoísmo e muita insensibilidade com os que passam necessidade. Alguns desses necessitados estão em nossa cidade. Façamos algo!

 

Márcio Rosa da Silva

O que é fé, senão uma aposta? Para aquilo se tem certeza a fé não é necessária. Fé é para aquilo que não se vê, que não se pode tanger, pode-se tão somente esperar. Ter fé é arriscar-se. Acreditar num futuro diferente e melhor é ter fé. Por isso que em Deus temos fé. Não o vemos, não o tocamos, mas cremos. É uma aposta que fazemos.

Isso acontece também nos relacionamentos. O casamento, por exemplo, é uma aposta. Não há certeza que vai dar certo, não se consegue prever o futuro. Mas quem se casa, o faz apostando que vai dar certo.

Em tudo na vida é assim. Por mais planejamento que se tenha, por mais que se tenha calculado todas as probabilidades, há sempre uma dose de imprevisão.

Quem não quer correr riscos não pode empreender coisa alguma, nem se relacionar com ninguém, porque relacionar-se é correr riscos, inclusive de se decepcionar muito e gravemente. Mas se não arriscar como saber?

Se não quer correr o risco de se decepcionar com pessoas, nunca se envolva, não faça amigos, se isole completamente, assim você não corre o risco de se machucar e também não machucará ninguém. Mas isso não é vida. É preciso arriscar-se.

Se você só vai participar de uma igreja quando encontrar uma em que as pessoas sejam perfeitas, cheias de fé, plenas de amor, retas em justiça, prontas para o céu, então se isole, fique só em sua casa, nunca entre em uma igreja. Mas se você aceita se arriscar para caminhar ao lado de gente capenga, falha, finita, pecadora, com todos os vícios e todas as virtudes que qualquer ser humano tem, então arrisque-se, envolva-se, comprometa-se com uma comunidade de fé.

Se você acha que o mundo não tem jeito, que nada nunca vai mudar, que os injustos sempre vão se dar bem e que os bons sempre vão sofrer, que não há nada que você possa fazer para alterar o mundo em sua volta para melhor, então não faça nada, fique olhando as coisas acontecerem e seja absorvido pelo seu cinismo. Mas se acredita que alguma coisa pode ser diferente e que você pode colaborar para isso; se você aposta que alguma coisa pode ser alterada se você deixar o imobilismo e o comodismo, então arrisque-se. Dê um salto de fé.

Se você acha que a vida é uma droga. Se não consegue ver nada de belo na vida, se não é agradecido por nada, então tem mesmo que ficar sentado num “trono de um apartamento, com a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”, como já cantou Raul Seixas. Mas você pode se arriscar e fazer algo.

Se você acha que as palavras de Jesus são uma balela e que a proposta de amor ao próximo como lei maior não vale nada e não muda nada,  então tudo bem, continue como está, vivendo uma religiosidade fria, sem vida e irrelevante. Se você vê a Deus como um Papai Noel bíblico que está pronto a dar a você os brinquedinhos que você tanto pede, se sua relação com o sagrado é infantil e baseada na troca, então continue se infantilizando.

Mas se você vê algo de transformador na mensagem de Cristo, algo revolucionário na proposta dos Evangelhos, então arrisque-se e comece a agir de modo a alterar para melhor o atual estado de coisas. Isso é fé.

 

Márcio Rosa da Silva

Vivemos a era da superficialidade. Tanto é assim, que um dos maiores fenômenos da atualidade é o Twitter, microblog no qual as postagens não podem exceder 140 caracteres. Um amigo, editor de um blog muito acessado, disse-me que quando ele posta textos com mais de quatro parágrafos, quase ninguém lê. Se a pessoa não lê algo que tenha mais de quatro parágrafos, como vai ler Guerra e Paz, Os miseráveis, ou Os Sertões?

Nos relacionamentos há muita superficialidade. “Ficar” tornou-se uma modalidade de relacionamento amoroso, lembrando que esse ficar é dar uns beijos ou algo mais, por apenas um evento. Nem precisa ligar no dia seguinte. Tempos rasos.

Essa cultura da superficialidade foi levada para o campo religioso. Hoje se vive muito claramente uma religião de mercado. Aquela que oferecer o melhor “produto” terá mais “clientes”, ou melhor, fiéis. Fiéis é modo de dizer, porque só serão fiéis enquanto houver conveniência. No dia em que aquela religião não mais lhe servir, muda pra outra mais adequada aos estímulos de consumo.

O “ficar” migrou para a experiência religiosa. A pessoa “fica” com Deus. Vai a uma igreja, sente um friozinho na espinha, tem uns êxtases, é gostoso, mas depois que sai daquele ambiente não “assume” Deus na vida diária.

Pode ser também a superficialidade baseada na necessidade de algo. A pessoa está numa enrascada, quer passar num concurso, quer arrumar alguém para casar, então vai à igreja pra ver se Deus arruma isso pra ela. Enxergam a igreja como uma fornecedora com grandes prateleiras onde produtos são oferecidos. Ora, isso não é espiritualidade, é consumismo.

Então Jesus morreu na cruz pra isso? Para que as pessoas fiquem olhando para o próprio umbigo e fazendo “campanhas” de oração pra arrumar marido, conseguir um carro novo e coisa e tal? Não, definitivamente, não. Isso é ser superficial demais!

O convite de Jesus é para rompermos a superficialidade e explorarmos águas mais profundas.

Quantos cristãos ainda são imaturos na fé? Eternamente perguntando se pode fazer isso ou aquilo, melindrados e magoados por qualquer coisa, incomodados com qualquer cisco no olho do outro, mas sem enxergar as traves no próprio.

Quantos não conseguem fazer qualquer abstração e levam tudo ao pé da letra?     Se não há capacidade de abstração, como entender que Jesus é a porta, a água, o pão, o vinho, o caminho? Quem leva a bíblia ao pé da letra é um imaturo na fé. Como vai entender, por exemplo, as parábolas de Jesus?

Há um convite à maturidade, para deixar essa relação utilitária com Deus, do toma lá, dá cá: “toma lá minhas orações, meus jejuns, minhas vindas à igreja, minhas ofertas… dá cá a minha benção, minha vida blindada, meus livramentos”.

A maturidade nos leva a uma relação de cooperação com Deus. Não ficar esperando Deus fazer as coisas por si e pelo mundo, mas se colocar como cooperador para realizar transformações junto com Deus, ser um agente de transformação. Mas isso exige um abandono do superficial para uma relação madura com Deus e com a vida.

Márcio Rosa da Silva

No dia 21 de setembro passado, o estado norte-americano da Geórgia executou Troy Davis, após um processo em que várias testemunhas que serviram de base para a condenação voltaram atrás, afirmando que tinham sido coagidas quando o apontaram como culpado. Mesmo assim, a sentença foi cumprida e o rapaz foi morto, para regozijo dos que amam a lei de talião, a lei do “olho por olho, dente por dente”.

Num país cristão, de maioria protestante, quase não se ouviram vozes que protestassem contra a pena capital. Por aqui, em terras tupiniquins, quase totalmente cristão, de maioria católica, também não houve indignação aparente. Muitos até aplaudem a aplicação do assassinato praticado pelo Estado.

Dia 29 de setembro, pouco mais de uma semana depois, outra possível aplicação da pena de morte causou furor, em especial nos meios religiosos. O pastor Youssef Nadarkhani, que mora no Irã, foi condenado à morte e pode ser executado, por ter abandonado o Islã e se convertido ao cristianismo. A lei daquele país pune a apostasia com a morte. Um absurdo. Uma coisa pavorosa.

O presidente Barack Obama se apressou em condenar tal medida, mas nenhuma palavra dele se ouviu acerca de Troy Davis. Muitas igrejas por aqui já fazem correntes de oração e abaixo assinados para que aquele país revogue a pena. Eu mesmo já assinei um desses documentos. Mas o desconcertante é que nada se viu em favor do negro norte-americano. Por quê?

A pena de morte é reprovável em si mesma, independente do contexto. Ela é sempre uma vitória da barbárie. O fato de alguém de ter cometido uma violência não justifica o uso de mais violência. Fosse assim, a sociedade submergiria num mar de sangue. O Estado tem de ser capaz de responder aos violentos crimes de maneira civilizada.

A pena privativa de liberdade, a prisão, teoricamente, não é apenas punição, mas uma tentativa de ressocializar o criminoso. Nem sempre dá certo, mas se entre mil apenas um se recuperar, já terá valido a pena. A pena de morte é a desistência da vida e a declaração de que aquele sujeito é cem por cento ruim. Isso é muita pretensão, pra dizer o mínimo. A pena que tenta reeducar é também um aceno da sociedade de que reconhece que não há ninguém totalmente mau. Por outro lado também não há ninguém totalmente bom. Se o sistema não funciona, é outra coisa, é preciso aprimorá-lo, mas não justifica a radicalização que elimina o problema matando as pessoas. Isso é coisa que os bandidos fazem, não um estado democrático de direito civilizado.

Além disso, a pena de morte é a negação dos valores cristãos mais caros. O Jesus dos Evangelhos é a encarnação da resistência pacífica, a consagração da não-violência. “Não se deve pagar o mal com o mal, mas vencer o mal com o bem” é o princípio que decorre de todos os ensinamentos de Jesus e que joga uma pá de cal em qualquer discussão que pretenda demonstrar que a pena de morte é legitimada por Cristo. É claro que isso não impediu que ele mesmo fosse vítima de um julgamento injusto e, depois, executado. Ele mesmo, vítima da pena de morte.

Depois de tanto tempo, o mundo, seja no distante e aparentemente inóspito Irã, seja na civilizada e opulenta América do Norte, ainda é bárbaro. Que triste.

Márcio Rosa da Silva

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Algumas palavras sobre mim.

Sou um aprendiz. Estou aprendendo sobre Deus, sobre as pessoas e sobre mim mesmo.
Neste espaço irei compartilhar alguns textos sobre minhas inquietações e sobre o aprendizado na minha caminhada.
Pastoreio a Igreja Betesda na cidade de Boa Vista, Estado de Roraima, extremo norte do Brasil.
Sou formado em Direito, membro do Ministério Público do Estado e professor de Direito em Boa Vista.
Sou casado com Viviane, uma linda roraimense.

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