Márcio Rosa da Silva

Seria notícia em todos as mídias do mundo: “Avião de grande porte, lotado, caiu em Boa Vista e todos os 113 ocupantes morreram”. Outra que daria primeira página em todos os lugares: “Conflito violento em uma cidade da Amazônia resulta em 7.105 feridos”.

Ainda bem que nenhum avião lotado caiu por aqui, nem houve um conflito desse tipo em nossa cidade (mais ou menos) pacata. Mas os números são reais. Deu na Folha. Até outubro desse ano de 2009, 113 pessoas morreram no trânsito e outras 7.105 foram atendidas no Pronto Socorro com ferimentos decorrentes de acidentes de trânsito. São números escandalosos. Mas por que não chocam como se fosse a queda de um avião ou um massacre provocado por um grupo armado ou coisa do tipo? Primeiro, porque as mortes acontecem no decorrer do ano inteiro e não de uma só vez. Assim, o choque vai sendo diluído com o passar dos dias. Segundo, porque a vida está banalizada mesmo, aviltada, sem valor algum.

É preciso um tratamento de choque! Não é possível sair todos os dias de casa como se estivéssemos indo para uma guerra, em que todos os dias há mortos e muitos feridos. É preciso passar pelos muitos acidentes que ocorrem na cidade, não desviando e dando graças a Deus por não ser você ou alguém da sua família, mas tentando se colocar no lugar da família que foi atingida pela tragédia. Talvez assim você tire o pé do acelerador e seja mais responsável no trânsito.

Muita gente tem culpa quanto a estes números horríveis, mas não adianta nada apenas transferir a responsabilidade para terceiros. Cada um de nós deve se ver responsável por isso. Cada um deve fazer sua parte, inclusive os governos. Para quê fazer do seu veículo uma arma? Afinal, a vítima pode ser você mesmo.

Outra coisa me intriga: numa cidade em que a maioria das pessoas se diz cristã, o trânsito deveria ser, por assim dizer, mais cristão. Dirigir também é uma exercício de espiritualidade. Sim, tirar nossa espiritualidade de dentro das igrejas e levá-la para as ruas é uma urgência. Se os princípios ensinados por Jesus Cristo fossem vividos no cotidiano, como tem de ser, ninguém negaria passagem para outro carro nem faria uma conversão proibida para encurtar caminho, afinal não se importaria de andar uma segunda milha. Também não haveria discussões violentas por ter levado uma fechada de um imprudente, dar a outra face seria realidade e seriam bem aventurados os mansos. Ninguém correria tanto e viveria tão tenso ao volante, porque saberiam que basta a cada dia seu próprio mal, são vãs as tensões e preocupações exageradas.

Por fim, todos dariam valor à sua própria vida e à dos outros e não seriam tão inconsequentes no trânsito, porque levariam a sério os mandamentos áureos que dizem: Ama a Deus com todo seu coração, mente e forças e ao próximo como a você mesmo. 

Que Deus nos livre de nossa brutalidade e que esse banho de sangue nas ruas de Boa Vista termine.

Márcio Rosa da Silva 

Começa o mês de celebração da Consciência Negra, cujo dia é 20 de novembro em memória de Zumbi dos Palmares. É uma oportunidade para avaliarmos nossos preconceitos, ainda que escondidos, escamoteados, e tentarmos nos livrar deles. Em especial num país como o Brasil, em que muita gente se orgulha de dizer que não há racismo. Será? Ou será que nosso racismo não é ostensivo? Se for assim, é ainda mais difícil extirpá-lo, porque o negamos, apesar de existir.

Por muito tempo pensei que deveríamos negar as diferenças, para que todos fôssemos iguais. Hoje percebo que o ideal é celebrar as diferenças e abraçá-las. O mundo é feito de pessoas diferentes, um mundo de iguais seria muito chato. Ainda bem que somos diferentes. Entretanto o que ocorre é que costumamos discriminar o diferente por conta de sua diferença, o que é um comportamento desumano, visto que nega a própria diversidade humana. Como Caetano diz na música Sampa, “é que Narciso acha feio o que não é espelho…”.

Fazer as pazes com nossas diferenças é aceitar que o mundo é multicolorido, multicultural, multifacetado. Foi o apóstolo Paulo que falou sobre uma certa multiforme graça de Deus, ou seja, uma graça que assume múltiplas formas, já antecipando a consciência sobre a aceitação das diferenças. O que não pode se admitir é o tratamento discriminatório por conta dessas diferenças. Se somos diferentes na cor, na origem, na cultura, não podemos ser diferentes no tratamento digno, no respeito aos direitos fundamentais e igualdade de condições de acesso aos benefícios econômicos.

Somos um em Cristo. Com todas as nossas diferenças Ele nos acolheu a todos, não fez, e não faz, discriminação de ninguém. Foi também Paulo que escreveu que em Cristo não há judeu ou grego, homem ou mulher, escravo ou livre, porque todos somos um em Cristo. No Reino de Deus, ideal de Justiça, não há qualquer distinção, ali os diferentes convivem bem e são tratados com a mesma dignidade e o mesmo amor. Faz sentido, então, orar para que o Reino de Deus venha a nós e que seja feita a vontade de Deus, assim na terra como no céu. Se isso acontecer, ou seja, se nos dispusermos a cumprir a vontade de Deus, o racismo será extinto. Até porque o racismo é a negação do Evangelho. Não vejo como seja possível ser cristão e racista ao mesmo tempo.

Deus nos fez assim, em nossa gênese fomos feitos para sermos diferentes uns dos outros, mas todos procedemos de Deus. E quando Deus nos fez, viu que tudo que o tinha criado era muio bom. E Deus nos amou a todos e acolheu a todos. A cruz de Cristo é uma prova de amor a todas as pessoas. Se Deus tanto amou a todos, indistintamente, quem é o homem para discriminar os amados de Deus?

É necessário se arrepender, pedir perdão, abandonar o preconceito racial e abraçar as diferenças e os diferentes. Assim, Deus estará sendo abraçado.

É o 5º ano que celebramos o Dia da Consciência Negra na Betesda.

Se puder, participe!

convite - consciencia negra 09

Márcio Rosa da Silva

Na esteira dos 26 anos da Folha de Boa Vista, comemorados nesta semana, lembrei-me que agora em outubro completei 7 anos escrevendo neste espaço, sempre aos sábados. Com essa idade uma criança já estaria lendo e escrevendo, já bem grandinha, correndo serelepe e fazendo estrepolias. É uma vida. Não tem como fugir do lugar comum e não dizer que parece que foi ontem que comecei.

É interessante como contamos o tempo, e é tão bom que seja assim: dias, semanas, meses, anos… Só assim podemos refletir a respeito do tempo que passou. Sete anos depois, vejo que mudei. Ainda bem. Já pensou se nunca mudássemos? Amadureci um pouco, abandonei algumas ilusões, revi algumas expectativas que se mostraram ingênuas ou irreais, hoje procuro ser mais humano.

O bom de escrever, assim sistematicamente, toda semana, é que essas mudanças do ser vão ficando registradas nos textos, vão sendo documentas pela escrita. As fotografias registram sua imagem, as rugas, os cabelos a menos, os quilos a mais. Mas o texto vai registrando sua alma, seus sentimentos, sua (i)maturidade. É uma radiografia do coração e da mente.

Uma coisa que pensei nesses 26 anos da Folha e também nos meus 7 anos de aprendiz de escritor, é que o tempo passa, quer você faça ou não alguma coisa. Se você deixa de realizar algo que está em seu coração, o tempo vai passar da mesma forma e, depois, você verá que o tempo escorreu por entre os seus dedos e você nada fez. Assim vão se passando os anos e, se nada for realizado, fica somente o lamento pelo tempo que se foi.

É necessário ser protagonista da própria história. Sim, muito do que acontece na nossa vida não depende de nossas decisões, mas são resultantes do que outras pessoas fizeram ou das contingências da vida. Mas boa parte dos rumos de nossa vida depende das decisões que tomamos, da firme disposição de fazer acontecer algo.

Se o Dr. Getúlio Cruz não tivesse tomado a iniciativa de iniciar e consolidar a Folha, os 26 anos teriam passado e esse veículo tão precioso não teria sido construído. Se, quando, convidado pelo Jessé Souza, eu tivesse recusado, alegando falta de tempo, ou tivesse dado lugar à indolência, os 7 anos teriam passado e eu não teria produzido tantos textos.

O tempo passa. Isso é inexorável. Mas podemos realizar, construir, muitas coisas no transcorrer do tempo. É possível fazer o tempo que passa valer a pena. A Folha de Boa Vista é uma prova disso.

Márcio Rosa da Silva

O passado é imutável. Nada que façamos vai alterar um só evento que passou. Ele é inexorável. Mas o futuro, este ainda não existe, então posso construí-lo. Aquilo que faço no presente, as decisões que tomo agora poderão alterar prognósticos, poderão construir um futuro diferente do previsível.

Se nos acomodarmos na crença de que não adianta fazer nada porque o mundo só vai de mal a pior mesmo, então nos tornaremos pessoas acomodadas. Se dirá: “deixe estar, deixe acontecer, não posso mudar nada mesmo. Nada que eu faça fará diferença alguma”.

Pensar assim nos leva, fatalmente, ao imobilismo. Se imaginarmos que tudo o que vai acontecer já está escrito de ante-mão, realmente não há o que fazer, nada vai mudar isso. É uma espécie de fatalismo segundo o qual o que tem que acontecer fatalmente vai acontecer porque Deus assim determinou.

Mas a história está em construção. Se está em construção, ela não está escrita de ante-mão, ela está sendo escrita. E se está em construção então posso mudar, posso interferir no futuro, posso alterar, direcionar, posso fazer alguma diferença para o futuro.

Além do fatalismo, outra coisa que precisa ser revista em nossa teologia é o fato de crer-se que Deus faz e fará tudo, sempre. Se pensarmos que, no fim das contas, Deus sempre vai intervir e fazer acontecer algo, isso também vai gerar o imobilismo, o conformismo, a letargia, a preguiça. “Se Deus vai fazer, porque devo então fazer algo. Deixe que Deus resolva”.

Milhões de pessoas ainda passam fome no mundo. Enquanto os homens não fizerem algo, elas continuarão passando fome. E isso, definitivamente não é da vontade de Deus, senão não seria Deus, seria um ídolo que sente prazer em ver seus filhos passando fome e sofrendo.

Mas para fazer algo, preciso entender que a história não está pronta, que posso interferir nos fatos e mudar o prognóstico, mudar o que se prevê, mudar o que está por acontecer.

Também preciso entender que Deus nos deu a missão de realizar e implantar Seu Reino aqui na terra. Ele nos comissionou, nos deu a tarefa de lutar e tudo fazer para que a Justiça seja estabelecida, que o Reino seja vivido, que o amor seja pleno.

O Reino de Deus chegou através de Jesus. Mas para que os valores do Reino sejam estabelecidos Ele nos deu a tarefa de pregar o evangelho a toda criatura. O evangelho, a boa notícia do Reino de Deus, que não é uma doutrina, mas um modo de viver o Reino de Deus aqui na terra. O Reino de Deus que traz graça, perdão de pecados, acolhimento, e que tem como valores justiça, paz e alegria no Espírito Santo e como regras de ouro, mandamentos inafastáveis, amar a Deus com toda força, coração e mente e ao próximo como a nós mesmos.

Somos peregrinos nesta terra com a missão de espalhar boas novas e vivermos o Reino numa dimensão humana para que os valores do Reino sejam estabelecidos aqui na terra.

A história será diferente e melhor se abraçarmos esses valores e nos sentirmos responsáveis, protagonistas, de um futuro que está por ser construído.

Márcio Rosa da Silva

Estou em busca de uma espiritualidade que seja coerente com o espírito das Escrituras, que seja fiel à essência do evangelho de Jesus Cristo, que faça sentido e seja o sentido das boas notícias trazidas por Jesus.

Eu estou realmente empenhado em tentar viver uma espiritualidade profunda, porém leve e humana. Não uma espiritualidade sobrenatural, mas humana, para chegar mais perto de Deus e do próximo. Quando Deus fala através do profeta Ezequiel, Ele diz que daria ao povo um coração novo, tiraria o coração de pedra e colocaria no lugar um coração de carne. Ou seja, no lugar do embrutecimento, que é sempre pecado, a sensibilidade. Um coração humano mesmo. De carne. Imperfeito. Mas não no sentido de estragado, e sim no sentido de inacabado, que ainda está em construção.

Não dedico minha vida, nem os melhores anos da minha vida à pregação do evangelho para agradar religiosos. Tampouco fui vocacionado para pregar para plateias de gente santa e perfeita. Não me empolga pregar para auditórios lotados de gente que “se acha”. Não quero olhar para trás e ver que investi meus melhores anos falando para gente que queria somente reafirmar seus sentimentos de superioridade espiritual. Não vejo a menor vantagem em sentir alívio por ser “santo” e não ser como o miserável pecador que está ao lado (esse sentimento era o que alimentava o fariseu que Jesus reprovou por estar orando assim, ao lado de um “pecador”).

Os sãos não precisam de médico. Salvação é para quem precisa. A boa notícia da graça é para quem se vê necessitado. Quem é perfeito não precisa de Jesus, nem de sua mensagem, nem de sua graça.  Quem se acha perfeito, é um tolo e, geralmente, intolerante.

O que me empolga, o que enche o meu coração de ânimo, o que me faz acordar todos os dias ainda animado com o Reino de Deus, é a possibilidade de anunciar boas notícias de esperança e amor para aqueles que se reconhecem pecadores. O que me deixa animado e cheio de vigor é poder anunciar um evangelho que é boa notícia para os pobres de espírito, para os contritos, para os marginalizados, para os excluídos, para aqueles que a religião institucionalizada excluiu por conta de suas inadequações.

O que me faz vibrar com o evangelho é a possibilidade de anunciar uma notícia que alegra o coração de quem está triste. Uma notícia que traz riso para quem a vida só proporcionou choro. Uma voz de alento e conforto para aquele que se sente só, abandonado, infeliz.

O que é mais espetacular é que posso anunciar uma palavra de amor para aqueles que ninguém mais quer amar. É dizer com autoridade e com poder, que o poder que importa mesmo, no fim das contas, é poder do amor. Que tudo passará, mas o que ficará para sempre é o amor.

Bom é saber que Jesus veio para abraçar a todos, mesmo correndo todos os riscos de ser tachado de amigo de pecadores, que anda com pecadores e prostitutas, beberrão e glutão. Ele veio para proclamar liberdade aos presos, vista aos cegos, alegria aos tristes e aliviar os corações angustiados. Para dar esperança para o desanimado e a amor para os que querem ser amados.

Essa é uma mensagem que vale a pena anunciar.

Márcio Rosa da Silva

Estou escandalizado! Não sei qual foi a razão pela qual a notícia aterradora não teve grande repercussão. Acho intrigante que notícias sobre o último “caso” da Madonna tenham mais destaque e despertem mais o interesse do grande público do que o que realmente importa à raça humana. Quando vi achei que tinha entendido errado, mas não, era aquilo mesmo: em 2009 o mundo tem um bilhão de famintos. A notícia foi dada pelo Programa Alimentar Mundial da ONU. Daí pensei: bem, devem ser um bilhão de pessoas com alimentação insuficiente, mas não que passam fome. Não era. Estes que não se alimentam o suficiente são três bilhões. Um bilhão são famintos mesmo. Fiquei estarrecido. Só um terço da população mundial come bem todos os dias. Isso é um escândalo. Mas ninguém liga.

Nem aqueles que se julgam muito religiosos ligam. Boa parte destes está mais preocupada com coisas irrelevantes do que com a vida humana. Se escandalizam com coisas mínimas mas são indiferentes com a banalização da vida. Tony Campolo, pregador e escritor cristão, disse, certa vez, numa palestra para estudantes universitários, o seguinte: “Enquanto você dormia ontem, 30.000 crianças morreram de fome ou de doenças relacionadas a má nutrição. E mais, a maioria de vocês nunca ajudaram em merda nenhuma. E o que é pior: você está mais perturbado com o fato de eu ter dito ‘merda’ do que com a notícia de que 30.000 crianças morreram de fome na última noite”. Certamente muitos dos que leem esse texto, neste exato momento, também se perturbariam mais com um pastor falando “merda” durante uma pregação do que com a notícia de um bilhão de famintos no mundo. Coam um mosquito e engolem um camelo.

O que tornou a notícia ainda mais escandalosa é que Josette Sheeran, diretora-executiva do Programa Alimentar da ONU, disse que se fosse investido menos de 1% de tudo o que foi gasto para conter a crise econômica mundial, o problema da fome seria resolvido no mundo. Repito, menos de 1%.

E sabe o que é ainda pior? É que muitos de nós cruzam os braços, olham para os céus e dizem: “Deus quis assim, que seja respeitada a vontade de Deus”. Cinismo. Omissão. Pecado. Deus não quer isso. E já nos deu todas as condições para acabar com essa miséria. O mundo produz comida suficiente para todos. Nós é que não dividimos de modo equitativo. A culpa é nossa, não de Deus. O mundo prefere gastar trilhões para salvar o sistema financeiro do que alguns bilhões para erradicar a fome.

E não há “atos proféticos”, nem orações piedosas, nem qualquer outra prática litúrgica que dê jeito nisso. Enquanto as pessoas, em especial aquelas que se dizem cristãs, não perceberem que a solidariedade é um imperativo do Reino de Deus, as coisas não vão mudar. Enquanto acharem que escândalo é soltar um palavrão ou tomar uma cervejinha no fim do dia, os milhões vão continuar morrendo sob a mais diabólica indiferença do “rebanho”.

Márcio Rosa da Silva

Tenho trabalhado há anos na defesa dos direitos da criança e do adolescente. Já vi muitas coisas horríveis acontecerem com crianças. Crimes, os mais diversos, sendo cometidos pelos adultos, vitimando pequenos indefesos. Há pais que negligenciam os cuidados mais elementares com relação aos filhos, e não estou me referindo a nada que exija grande poder aquisitivo, falo de coisas como deixar de acompanhar a vida escolar dos filhos, agredir fisicamente com espancamentos, como se a criança fosse culpada dos estresses de seus pais, e coisas do tipo.

Existem aqueles adultos que, responsáveis por uma criança, em vez de protegê-la a expõem a toda sorte de violência e abuso, inclusive a pior de todas as violências, a de natureza sexual.

Talvez a pior negligência que possa haver, e que acontece de forma muito silenciosa, é a de afeto. Há crianças que não são amadas por aqueles que as puseram no mundo. E não há decisão judicial que obrigue um pai a dar afeto. Pode-se obrigar a pagar alimentos ou garantir escola, mas não há como obrigar um pai e uma mãe a amar seus filhos, quando o afeto não existe.

É terrível ver uma criança inocente, que não pediu pra nascer, ser vítima da falta de cuidado, de afeto, de carinho, de acolhimento, de paternidade e maternidade. Crianças não deveriam sofrer. Deveriam ser sempre protegidas, cuidadas, amadas. Como seria bom se houvesse alguma maneira de evitar a violência contra a criança. Não apenas punir, porque a punição presume que a violência já aconteceu, mas evitar a violência ou negligência.

Mas a irresponsabilidade dos adultos é grande. Muitos não fazem planejamento familiar, não pensam sobre o momento de ter filhos e os tem antes do tempo oportuno, o que pode gerar rejeição, que vai resultar, fatalmente, em alguma forma de negligência.

Antes de colocar uma criança no mundo, os adultos deveriam pensar nas consequências disso. Ter filhos é uma benção, mas traz responsabilidades. É preciso ter estrutura emocional e financeira para ter um filho. Infelizmente algumas pessoas pensam apenas no prazer do momento da relação sexual e, irresponsavelmente, não usam qualquer meio contraceptivo.

Quantos homens não são dignos de serem assim chamados, porque fazem filhos e os deixam sem o seu nome, não assumem a responsabilidade da paternidade e, assim, se tornam diretamente responsáveis pelo sofrimento destas crianças. Quantas mulheres que poderiam ter se prevenido e não terem tido tantos filhos ou tê-los em outro momento de suas vidas, acabam expondo crianças ao sofrimento.

Se for para ter filhos para fazerem-nos sofrer desnecessariamente, melhor não tê-los. Fazer um filho e depois nem se dignar a registrar como seu, dar-lhe um sobrenome e assumir as responsabilidades de pai demonstra que tal pessoa é covarde, irresponsável e causadora de sofrimentos a uma criança. Da mesma sorte, engravidar por falta de cuidados mínimos de prevenção para depois permitir que a criança seja exposta a abusos e negligências é algo criminoso. Hoje em dia em qualquer posto de saúde há distribuição gratuita de preservativos e orientação sobre outros métodos contraceptivos.

Há muitas crianças que hoje sofrem no mundo e a culpa não é de Deus. Em boa parte, é culpa de pais e mães irresponsáveis. Coisa terrível é isso, porque tudo o que homem plantar, isso também ceifará.

Quando finalmente você decidir ter filhos, que seja uma decisão madura, bem pensada e que você seja um pai ou mãe que seja motivo de orgulho e uma benção para seus filhos.

Márcio Rosa da Silva

Uma vez, eu era ainda um adolescente, ouvi um pregador inflamado bradar de um púlpito que ele não acreditava que mulheres que cortavam o cabelo iriam para o céu. E se elas fossem, ele não queria ir para tal céu. Muitos que estavam no auditório aquiesceram, outros ficaram mudos, meio que desconcertados com o que ouviram. Outros, ainda, ficaram com olhar de estupefação e admirados com tamanho disparate, com tamanha tolice. Eu estava entre esses últimos. Ali, ainda na meu início de caminhada cristã, fiquei imaginando: “esse cara, então, acha que uns centímetros a mais ou a menos de cabelo vão cerrar as portas do céu para alguém?”.

Esse é apenas um exemplo grotesco do exclusivismo que caracteriza boa parte das religiões e a quase a totalidade dos evangélicos. Não aceitar qualquer coisa que não seja exatamente igual ao que se entende certinho por um determinado grupo.

Não precisamos gostar de outras expressões do cristianismo. Não precisamos praticar liturgias que não nos dizem respeito, nem tem nada a ver com nossa cultura. Mas isso não quer dizer que as pessoas que fazem parte de outras concepções do cristianismo esteja condenadas ao inferno. Esse é um problema sério – rotular as pessoas entre “salvos” e “perdidos” – como se nós é que tivéssemos o poder de mandar alguém para o céu para o inferno. Aqueles que não se parecem com um grupo, que não tem uma liturgia parecida com a deles, que não crêem exatamente como eles crêem, que não tem a visão de Jesus exatamente como eles tem, estão perdidos. Ai de quem crer em algum ponto de fé um pouco diferente. Ai de quem não se enquadrar no estereótipo. Ai de quem não for um “escolhido” e não cantar hinos europeus traduzidos para o português e não tiver uma liturgia de culto anglo-saxã. Está perdido.

Não podemos ter a pretensão de padronizar as pessoas. Muitos tem medo da igreja, ou dela se afastam, por causa dessa padronização.

Isso acontece porque queremos ser donos de uma verdade absoluta. E não somos donos de verdade absoluta alguma. Jesus é a verdade absoluta. Mas a forma como eu vejo, interpreto e vivo essa verdade não é absoluta.

Acredito que precisamos ser mais tolerantes com os diferentes, amá-los de maneira incondicional e acolhe-los de maneira misericordiosa. A graça de Jesus está disponível para todos os povos, ela é universal. E se Deus não faz acepção de pessoas, por que a igreja faz?

Precisamos olhar para as pessoas com o olhar de Deus. Deus vê as pessoas, todas as pessoas, como filhos amados, dignos de compaixão e misericórdia. Ele deseja que essas pessoas, todas elas, sejam salvas.

Só assim a igreja será um espaço em que os diferentes conseguem conviver com suas diferenças, se amam e se respeitam. Se o céu for um lugar onde todo mundo é igualzinho, todo mundo padronizadinho, deve ser um lugar muito tedioso. Assim, também, uma igreja onde todo mundo é igualzinho é sem graça, sem sal, sem vida, sem a manifestação da multiforme graça de Deus.

Márcio Rosa da Silva

A figura de um messias (enviado, ungido, que tem poderes especiais para deflagrar uma transformação no estado de coisas) é comum a quase todas as religiões. Os judeus da época bíblica também esperavam um messias, mas não creram que ele tenha sido Jesus. E não creram por uma razão simples: eles aguardavam um messias glorioso, cheio de poder, que impusesse um reino celestial à força e que exaltasse Israel sobre todas as outras nações.

O messias que veio não se parece nada com o que Israel esperava e espera. Faltou aos conterrâneos e contemporâneos de Jesus observar melhor o texto do profeta Isaías quando ele descreve o messias que havia de vir como um homem de dores, experimentado no sofrimento. O profeta diz que o messias não teria qualquer beleza ou majestade que fossem atraentes. Sua aparência seria tão desfigurada pela violência, que ele se tornaria irreconhecível como homem. Seria desprezado e rejeitado pelos homens, alguém de quem os homens escondem o rosto.

Jesus frustrou as expectativas messiânicas de seu povo ao encarnar nossa humanidade, com toda fragilidade que nos é peculiar. O messias veio como um homem. E não como um homem rico, um príncipe guerreiro, um grande estadista, um religioso poderoso. Ele veio como uma pessoa simples, de origem humilde.

Até aí tudo bem, mas em algum momento ele assumiria as feições de um super-homem, e implantaria o Seu Reino, esperavam seus compatriotas.

Não. Com 30 anos se batizou e disse que o Reino de Deus já tinha chegado. Sem nenhum alarde. O Reino de Deus já estava no nosso meio, porque Deus tinha se feito homem e habitado entre nós, sem nenhum espetáculo, sem derramamento de sangue, sem guerra e sem devolver o poder político para Israel. Isso era extremamente frustrante.

Ele não era bonito e forte como os reis (os reis, lá no início da história, eram os mais fortes e os mais belos dentre o povo). Jesus não era belo, nem forte fisicamente. Como disse Isaías, ele não tinha qualquer beleza ou majestade que nos atraísse.

Fico pensando que se Jesus voltasse hoje nós não o reconheceríamos. Nós, assim como os judeus daquela época, esperamos um Jesus assim, glorioso, montado num cavalo branco, com espada na mão e para destruir tudo e nos glorificar. Pois é, temos razões para crermos assim, porque a interpretação que fazemos das Escrituras dão margem a essa crença. Mas, e se estivermos interpretando errado? E se Jesus voltar discretamente?

Aliás, precisamos ter olhos e sensibilidade para ver Jesus voltando todos os dias e presente no nosso meio. Nunca é demais lembrar que quando fazemos algo a um dos pequeninos de Jesus, estamos fazendo para Ele.

Talvez eu precise enxergar Jesus nos olhos da criança abandonada, violentada, desprezada. Jesus foi desprezado. Preciso ver Jesus no rosto de quem sofre injustiças. Ele sofreu um julgamento injusto. Preciso ver Jesus na expressão do doente terminal contorcido de dores. Jesus passou por isso. Preciso ver Jesus na olhar desencantado do idoso que foi abandonado pelos seus e hoje amarga a solidão. Jesus esteve só e abandonado. Preciso ver Jesus naqueles que sofrem. Ele foi experimentado no sofrimento.

A minha resposta a estes vai determinar se creio, ou não, na vinda de Jesus.

Twitter

Blog Stats

  • 24,235 hits

Algumas palavras sobre mim.

Sou um aprendiz. Estou aprendendo sobre Deus, sobre as pessoas e sobre mim mesmo.
Neste espaço irei compartilhar alguns textos sobre minhas inquietações e sobre o aprendizado na minha caminhada.
Pastoreio a Igreja Betesda na cidade de Boa Vista, Estado de Roraima, extremo norte do Brasil.
Sou formado em Direito, membro do Ministério Público do Estado e professor de Direito em Boa Vista.
Sou casado com Viviane, uma linda roraimense.